Alimentação e Autismo – Visão de uma Nutricionista

As crianças com autismo podem beneficiar de uma dieta sem caseína (uma proteína do leite), sem glúten e sem soja e muito rica em ácidos gordos ómega 3.

O que é que o autismo e outras doenças do espetro do autismo têm a ver com a alimentação?

Para responder a essa questão gosto de citar um psiquiatra que ouvi numa apresentação e que diz que, na anatomia, os profissionais de saúde se esquecem que existe pescoço e que a cabeça está ligada ao corpo. Algumas doenças psiquiátricas e neurológicas envolvem apenas o cérebro, mas outras não – é o caso do autismo. E a verdade é que o cérebro funciona à custa do corpo. Isto para dizer que os neurotransmissores, as substâncias químicas usadas na comunicação entre neurónios, são nutrientes e toda a gente sabe que quando são retirados alguns nutrientes importantes o cérebro deixa de funcionar tão bem. Aumentar uns e retirar outros também tem influência. O que sabemos é que as crianças com autismo têm alterações bioquímicas e fisiológicas específicas e não conseguem lidar com certos alimentos, que devem ser retirados, e precisam de doses mais elevadas de outros nutrientes, que devem ser acrescentados.

Que alimentos devem ser eliminados?

Eliminamos compostos que alteram a comunicação cerebral. Sabemos que a grande maioria destas crianças reage ao glúten e à caseína (uma proteína que existe no leite) e verificamos que, retirando o glúten e a caseína, entre sessenta a setenta por cento registam melhorias. É muito significativo.

Mas também recorrem a suplementos alimentares. Quais?

A maior parte das crianças com autismo precisa de fazer ómega 3, sobretudo EPA (ácido eicosapentaenóico, que é um potente anti-inflamatório), e DHA (ácido docosahexaenóico, fundamental para os neurónios e estrutura cerebral). Algumas também têm deficiência de magnésio (o que contribui para a irritabilidade e excitação) e de vitamina B6, e um enorme stress oxidativo, o que altera o funcionamento celular e a expressão genética.

Qual é o princípio da abordagem biomédica do autismo?

Retirar o que faz mal, repor o que faz falta e reequilibrar o que está desequilibrado. No tratamento do autismo é fundamental a interdisciplinaridade – apoio médico (pedopsiquiatria e neurologia, mas também gastrenterologia, imunologia, alergologia), terapias comportamentais, nutrição e muita compreensão, carinho, amor e aceitação.

A retirada dos alimentos é feita às cegas ou fazem-se exames de diagnóstico?

Fazem-se análises ao sangue, urina e fezes e faz-se um exame físico (pele, unhas, cabelo). Mas importa dizer que não há um protocolo que possa ser aplicado a todas as crianças pois, se somos diferentes uns dos outros, nas crianças com autismo essas diferenças são ainda mais marcantes e é difícil encontrar um grupo homogéneo. Só a dieta sem caseína e sem glúten é que é transversal, os suplementos e as terapias comportamentais variam de criança para criança. Certo é que numa primeira fase se retira tudo o que é lixo alimentar, especialmente corantes, aditivos e pesticidas. Na segunda etapa, retiramos o glúten (existe no trigo, cevada, centeio e aveia) e a caseína (todos os lacticínios). Os pais devem ser muito rigorosos neste regime para que, seis meses depois, se possa avaliar a eficácia da dieta. Os dados que existem mostram melhoria em sessenta a setenta por cento das crianças.

Quem tiver um filho com autismo pode experimentar estas alterações sem correr riscos?

Retirar o glúten não comporta nenhum risco nutricional – é só substituir um cereal por outro sem glúten, por exemplo milho, arroz, trigo-sarraceno – mas é importante que os pais saibam que com a caseína já é diferente. É que o cálcio e a proteína, habitualmente fornecidos pelo leite e fundamentais para o desenvolvimento das crianças, têm de ser compensados. E para isso já é preciso apoio de um profissional. Portanto, direi que, na primeira fase, quando é preciso trocar os cereais, pode bastar a informação e o apoio entre pais, mas depois é preciso um nutricionista.

O que acontece quando as crianças voltam a ingerir glúten e caseína?

As alterações de comportamento, alguns sintomas e perturbações gastrointestinais, da pele, as alergias, a inflamação cerebral, etc., podem voltar a agravar-se. A susceptibilidade está lá, a alimentação pode aumentá-la ou neutralizá-la. Os alimentos têm o poder de modular inúmeras funções orgânicas, a comunicação hormonal e a expressão genética.

Por: DANIELA SEABRA, Nutricionista pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, especializou-se em nutrição funcional, no Institute for Functional Medicine (EUA), e em tratamento biomédico do autismo, no Autism Research Institute (também nos EUA). Trabalhou dez anos no Hospital de São Sebastião, em Santa Maria da Feira (Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga), mas atualmente só faz consulta privada.

https://www.dn.pt/revistas/nm/interior/alimentacao-contra-o-autismo-3653349.html