Quando a ansiedade afecta o meu filho com autismo

O meu filho está no Espectro do Autismo e tem Défice de Atenção com Hiperatividade. É um rapaz doce e afável que adora fazer as pessoas felizes. Ultimamente as suas emoções estão a vencê-lo e perdeu a capacidade de auto-regular essas emoções.

Há dois anos e meio arranjámos uma cadela pequena chamada Fergie. A Fergie é uma adorável Cockapoo. Arranjámo-la para o nosso filho. Queríamos que tivesse um amigo, um companheiro que estaria lá incondicionalmente. Ele gostava dela, mas durante algum tempo não se queria aproximar muito dela. Ele gosta que ela esteja lá mas ao mesmo tempo ela não pode estar lá. É semelhante aquilo que ele sente pelas pessoas. Não nos fazia diferença – esta era uma relação que ele podia criar, com as suas próprias condições e sem ninguém se sentir mal com isso.

Mas depois da Fergie ter saído pelo portão do nosso quintal por demasiado tempo, o meu filho começou a preocupar-se. E muito. Sempre que alguém ia à porta ele entraria em pânico. Ele tentaria impedir a cadela de sair, mas nesse processo ele acabaria por tropeçar ou fazer com que alguém (como por exemplo a pessoa que estava a entrar ou a sair de casa) tropeçasse nos seus passos. Ele gritaria. Nós gritaríamos. Ele fecharia a porta com força antes que a pessoa entrasse ou saísse. Era uma confusão. Ele pediria para se verificar o portão do quintal de forma implacável. Não deixaria a cadela sair sem verificar o portão primeiro. Independentemente do que estivéssemos a fazer. Independentemente do que ele estivesse a fazer. Esta era a coisa mais importante para ele.

Há seis meses atrás começámos a ir a um psicólogo que trabalha com crianças com PEA. Não foi especificamente por causa da situação da cadela, mas havia uma série de coisas a trabalhar, incluindo o desenvolvimento por parte do nosso filho da consciência de que é diferente. Até agora ele nunca tinha feito perguntas ou falado sobre o seu autismo. Com a auto-consciência veio a tristeza. O momento em que percebes que não é fácil ser diferente. Havia perguntas e preocupações. Havia auto-aversão, raiva e frustração. Havia ressentimento. Era muito mais do que aquilo que eu conseguia ajudá-lo.

Felizmente houve uma ligação imediata entre o meu filho e o doutor. Mas a ansiedade não diminuía.

Então o que fazer? Como ajudá-lo?

Como aprendizes continuámos a procurar aconselhamento dos profissionais. Começámos a ter algumas ideias nossas: Ele não pode verificar o portão mais do que 5 vezes por dia. Permitimos que ele nos pergunte onde a cadela está quantas vezes ele quiser, o que parece acalmá-lo. Ele não anda sempre a correr à procura dela. Ele estará a ler, brincar, praticar piano ou violino em outra divisão e apenas chama e pergunta onde ela está, sem interromper a sua vida. O que é uma melhoria. Para todos nós.

Mas na noite passada, estavámos no andar de cima, os miúdos estavam a preparar-se para ir para a cama. O meu marido ia sair. O nosso filho estava no cimo das escadas, ouviu a porta e entrou em pânico. A cadela estava mesmo ao pé de mim no patamar no cimo das escadas. Ela agitou-se quando ouviu abrir a porta mas não foi longe. Ela não estava a tentar ir a lado nenhum. Mas o meu filho não achou isso. Correu para o meio da escadaria e tentou agarrá-la. A porta da frente continuava aberta porque o meu marido estava preocupado que o filho caísse das escadas. Ambos lhe dissemos para sair das escadas e ele gritou: “A cadela! A cadela!”. Gritei: “Sai das escadas!” e disse ao meu marido para sair porque eu queria a porta fechada. Puxei o meu filho para o patamar. Ele chorou e no meio das lágrimas disse: “Desculpa! Só não quero que a Fergie fuja.”

Dei-lhe tempo para se acalmar. Falei calmamente e perguntei-lhe se podia falar com ele. Ele disse-me que me queria dizer uma coisa.
“Diz, mas depois é a minha vez, ok?”
“Ok”
Ele acalmou-se, ainda a lutar contra as lágrimas e com a boca tensa. O meu coração partiu-se. O meu menino. O meu bebé. Mas ele não disse nada.
“O que foi?” perguntou ele.
“Querias dizer-me uma coisa primeiro” disse eu.
“Oh. Desculpa. Desculpa mas eu não quero que nada aconteça à Fergie.”
“Eu sei querido. Posso falar agora companheiro?”
“Ok”
“Querido, a Fergie é a nossa cadela, mas tu és o meu filho. A minha função é proteger-te.”
“Mas e se a Fergie fugir?”
“Se a Fergie fugir, vai ser duro, mas podemos arranjar outro cão.”
“Não quero outro cão.”
“E não vamos arranjar outro cão porque a Fergie está aqui sã e salva. (Ao som do seu nome a Fergie começou a enchê-lo com beijos atrás de beijos). Segurei a sua mão e continuei: “Mas não posso substituir-te.” disse eu colocando a minha mão no seu coração.
Ele abanou a sua cabeça e olhou para mim com os seus olhos cheios de amor e esperança e sorriu. “Amo-te companheiro.”
“Também te amo mamã, mas é o meu autismo. A minha irmã tem autismo?”
“Não”
“Como sabes?”
“Porque os médicos o teriam dito.”
“Oh”

“Quem me dera não ter autismo. Faz-me dizer coisas e faz-me ser mau.”

O meu menino não é mau. Mas o meu menino tem autismo. Ele está a aperceber-se do que isso significa. Significa que às vezes ele é rígido e que nem sempre é consciente ou sensível aos sentimentos dos outros. E é aqui que eu penso que as coisas podem ser complicadas. O que acontece quando a auto-consciência, a ansiedade, o défice de atenção com hiperatividade, o autismo e as hormonas querem ser o centro? Espero que a ajuda que estamos a ter ajude. Desejo que o meu menino tenha paz. Peço para que ele ultrapasse os próximos anos ileso, e quando olhar nos seus olhos consiga sempre ver a sua cara de bebé. Inocente e cheio de esperança e sonhos. E que ele continue a sorrir, inocentemente e com toneladas de amor no seu coração para o mundo ver.
The Mighty