AUTISMO E O TEMPO FRENTE AO ECRÃ

11 razões pelas quais as crianças com autismo são extra vulneráveis aos efeitos secundários do tempo frente ao ecrã e da dependência tecnológica:

  1.  As crianças com autismo tendem a ter baixa melatonina e perturbações do sono [1] e o tempo frente ao ecrã reprime a mesma e perturba o sono. [2] Além da regulação do sono e do relógio biológico, a melatonina também ajuda a ajustar as hormonas e a química no cérebro, equilibra o sistema imunológico e mantém a inflamação sob controlo.
  2. Crianças com autismo são propensas a problemas de regulação da excitação, manifestadas numa resposta de stress exagerada, desregulação emocional ou tendência a serem mais ou menos estimulados [3]; o tempo frente ao ecrã aumenta o stress agudo e crónico, provoca hiperexcitação, desregulação emocional e produz hiperestimulação. [4]
  3. O autismo está associado com a inflamação do sistema nervoso [5] e o tempo frente ao ecrã pode aumentar a inflamação através de uma variedade de mecanismos incluindo o aumento das hormonas do stress, a repressão da melatonina e a falta de revitalização do sono. [6] A luz dos ecrãs, durante a noite, também reprime o sono REM (sono mais leve, prevalente no último terço da noite), uma fase em que o cérebro “limpa a casa”. [7]
  4. O cérebro autista tende a estar sob conectado – menos integrado e mais compartimentalizado [8] – e o tempo frente ao ecrã impede a integração total do cérebro;
  5. As crianças com autismo têm deficits sociais e comunicacionais, como a dificuldade em manter o contacto visual, a dificuldade em ler as expressões faciais e a linguagem corporal, uma baixa empatia e a dificuldade comunicacional [11]; o tempo frente ao ecrã dificulta o desenvolvimento dessas mesmas aptidões – mesmo em crianças e adolescentes que não têm autismo. [12] O tempo frente ao ecrã aparenta competir diretamente com recompensas sociais, incluindo o contacto visual – fator essencial para o desenvolvimento cerebral. [13] Por último, a visualização do ecrã e mesmo os antecedentes televisivos tem demostrado atrasar a aprendizagem de línguas. [14]
  6. Crianças com autismo são mais propensas à ansiedade [15] – incluindo traços obsessivos-compulsivos, ansiedade social – e o tempo frente ao ecrã está associado com um risco acrescido para a POC (Perturbação Obsessiva-compulsiva) e ansiedade social [16], contribuindo ao mesmo tempo para uma estimulação elevada e fracas estratégias de coping [17]. Além disso, a ansiedade no autismo tem estado associado a anomalias da síntese da serotonina e da atividade da amígdala [18] e ambas as regulações da serotonina e as alterações da amígdala têm estado envolvidas no tempo frente ao ecrã. [19]
  7. Frequentemente, as crianças com autismo têm questões sensoriais e motoras assim como tiques; o tempo frente ao ecrã tem estado associado a atrasos sensoriais e motores e piorando o processo sensorial [21] e pode apressar ou piorar tiques vocais e motores devido à libertação de dopamina.
  8. Pessoas com autismo são típica e altamente atraídas a tecnologias com base em ecrãs e têm não só um risco acrescido de desenvolverem vícios em videojogos e outras tecnologias, mas também mais prováveis de exibir sintomas com pequenas quantidades de exposição. [22] Os adolescentes e jovens adultos do sexo masculino com PEA também têm um risco acrescido de desenvolver vícios relacionados com a pornografia devido a uma combinação de deficits sociais, de isolamento e tempo excessivo de computador, e podem desenvolver ilusões românticas ou obsessões alimentadas pela habituação da gratificação imediata e à falta de pratica no mundo real. Ao mesmo tempo, a libertação de dopamina devido à interação com o ecrã reforça estes “ciclos” obsessivos.
  9. As crianças com autismo tendem a ter um sistema de atenção delicado, fraco funcionamento executivo e uma “reduzida banda larga” no processamento de informação [23]; o tempo frente ao ecrã também fraturam a atenção, esgotam as reservas mentais e prejudicam o funcionamento executivo. [24]
  10. As crianças com autismo podem ser mais sensíveis a EMF (campos eletromagnéticos) emitidos através de comunicações sem fios (p.ex rede wi-fi e frequências de telemóveis), assim como dos próprios dispositivos eletrónicos. [25] Ao nível celular, molecular e atómico, a patologia verificada no autismo espelha os efeitos demonstrados na investigação dos impactos biológicos dos EMF. A sensibilidade elevada aos EMF pode dever-se (e podem piorar) a anomalias imunológicas e a problemas com barreiras de integridade no intestino e/ou no cérebro.
  11. Crianças com autismo têm um risco acrescido para perturbações psiquiátricas de todos os tipos, incluindo perturbações de humor e ansiedade, PHDA, tiques e psicose. [26] No que respeita a psicose, pessoas jovens com PEA que são diariamente dedicados ao tempo de ecrã podem experienciar alucinações, paranoia, dissociação e perda da noção da realidade. Contudo, muito frequentemente, estes sintomas assustadores resolvem-se ou diminuem consideravelmente assim que os dispositivos são removidos e não precisem medicamentos antipsicóticos.
Para além das razões acima mencionadas, o tempo de ecrã substitui as mesmas coisas que sabemos que são essenciais para o desenvolvimento cerebral: a criação de laços, movimentos, contacto visual, interações verbais cara a cara, afeto humano, exercício, tempo livre e a exposição com a natureza e o exterior. Uma reduzida exposição a estes fatores pode influenciar negativamente a integração do cérebro, o Q.I e a resiliência em todas as crianças.
Na minha própria experiencia de trabalhar com crianças e adultos com autismo, o tempo de ecrã pode precipitar a regressão (perda de capacidades linguísticas ou sociais ou adaptativas), agravar os comportamentos repetitivos, limitar ainda mais os interesses e desencadear comportamentos agressivos e autolesivos. Tenho observado a regressão ocorrer quando um dispositivo de comunicação é introduzido, normalmente quando é dito aos pais para encorajar as crianças a “mexer” no dispositivo para “se habituar”. A proliferação do iPad e dos smartphones têm provocado mais problemas e contratempos no meu trabalho do que qualquer outro fator.
Assim como estas experiencias podem ser stressantes e devastadoras, uma eliminação metódica dos ecrãs também pode ser empolgante e inspiradora. Estar livre dos ecrãs pode melhorar o contacto visual e a linguagem, aumentar a flexibilidade no pensamento e nos comportamentos, alargar os interesses, melhorar as regulações emocionais e a habilidade de cumprir as tarefas, produz um sono mais revitalizante e reduz a ansiedade e os esgotamentos.
Embora a ideia da remoção dos ecrãs possa parecer avassaladora, aconselho vivamente um “jejum eletrónico” de quatro semanas como uma experiência para que consigam saborear o que a intervenção é capaz de fazer.
As famílias encontram duas a três áreas problemáticas para proporcionar provas objetivas e são encorajados a documentar comportamentos (como os ataques de raiva frente ao ecrã e como as crianças brincam). Até mesmo algumas semanas podem produzir melhorias que podem ser suficientemente significantes para a família decidir continuar com a remoção dos ecrãs, caso em que os benefícios continuarão a crescer uns nos outros.

As crianças vão continuar a ter autismo?

Sim, mas é praticamente garantido que ele ou ela vai sentir, focar-se, dormir, comportar-se e funcionar melhor. E curiosamente, provas empíricas sugerem que esta simples intervenção pode ser suficientemente forte para prevenir, detetar e até, em alguns casos, reverter o autismo diagnosticado suficientemente cedo. Testes de estudos piloto mais formais a esta intervenção estão disponíveis. (Casos de estudos que ilustrem este fenómeno serão sujeitos a uma futura publicação).

Quando os pais compreendem realmente a ciência do que acontece no cérebro quando uma criança interage com dispositivos de ecrã – e percebe como estas coisas impactam especificamente o autismo – são muito mais capazes de restringir os ecrãs adequadamente e serem menos influenciados pela pressão social. Eles “veem” como o tempo de ecrã traduz certos sintomas na sua criança, priorizam a saúde mental ao invés da experiência tecnológica e valorizam que todos os minutos gastos em frente ao ecrã são negociáveis.

Para mais ajuda para implementar o jejum de ecrãs, consulte “Reset Your Child’s Brain: A Four-Week Plan to End Meltdowns, Raise Grades, and Boost Social Skills by Reversing the Efects of Screen-Time”.

Referências

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