De que forma o meu filho com autismo me mudou

No outro dia estava a falar com um completo desconhecido na paragem de autocarro do acampamento de férias do meu filho. Conversámos como velhos amigos.

Há algo que nos une a todos… as experiências, a dor, a alegria e as aprendizagens. Há tanto para partilhar.

Finalmente despedimo-nos, prometendo um almoço juntamente com uma sessão de spa… sabendo bem que é mais fácil dizer do que fazer.

No regresso, pensei… Nunca fui o tipo de pessoa que simplesmente abordava alguém e começava a conversar. Preferia o conforto da familiaridade. E hoje, aqui estou eu, a conversar com alguém que nunca tinha conhecido e a sentir-me muito relaxada quanto a isso. Deixou-me a pensar – o diagnostico de autismo do meu filho mudou-me quanto pessoa. Era tempo de dar ao autismo a devida atenção.

Forte e Determinada

Lembro-me dos dias em que nunca conseguia dizer não, discordar ou dar o meu ponto de vista – com convicção. Era mais feliz a ceder para que todos se sentissem bem à minha volta. Avançando para o presente. Sou a defensora do meu filho. Se eu me sentar e ceder, o Vedant não vai ter atenção. Tive de o defender nos encontros do IEP, dos professores, das escolas, dos terapeutas, dos doutores, das autoridades locais, da família, dos amigos, dos desconhecidos que o queriam julgar no supermercado ou na mercearia ou num parque infantil, e daqueles que se intrometem entre o Vedant e o seu bem-estar. Sou uma pessoa mais forte e assertiva, que não aceita um não como resposta quando se trata do seu filho. O autismo ensinou-me a me manifestar e a falar sobre o que é certo, para proteger sempre o Vedant. Fez-me extremamente firme e profundamente determinada.

Paciência Evasiva

Vamos falar sobre paciência. Um dia com um mau penteado nunca foi um problema para mim. Tudo o que precisava fazer era pegar naquele par de tesouras e cortar o bocado de cabelo desobediente e estava pronta. Não tinha paciência para esperar. Não conseguia rever os meus documentos para um teste pacientemente, não o conseguia fazer eu própria porque é necessário ser paciente para as coisas se manterem, crescerem, etc. Não conseguia esperar. Bem… nem o meu filho que decidiu nascer seis semanas mais cedo. Ele também não conseguia esperar. Acho que está nos genes. Contudo, agora sou uma mãe mais paciente. Espero que a sua crise passe. Tenho esperado para que me retribua um olá. Nos últimos quatro anos tenho sido paciente para lhe tentar ensinar a cor vermelha e ainda estou a trabalhar nisso. Ainda espero por ele… pacientemente… para que fale comigo, para que traga um amigo a casa ou que me peça por um brinquedo. Aprendi a esperar, a ser paciente e a continuar a tentar porque se há algo que o autismo lhe ensina é a perseverança.

O copo está meio cheio

O otimismo vem com o território. Espero sempre pelo melhor. Não que eu fosse pessimista, mas agora sou uma otimista eterna. O otimismo é o que me faz continuar porque se perco esperança, falho com o meu filho. Diga-me um pai que não seja criativo e eu apresento-lhe uma criança que o tornará num. Todos os pais aprendem a encontrar maneiras para resolver as coisas. Acontece que o autismo leva-o para alguns desafios extras, por isso aprendi a usar a minha imaginação um pouco mais e pensar fora da caixa. Posso pegar num objeto banal e transformá-lo num brinquedo sensorial ou transformar uma atividade num trabalho de terapia ocupacional. Com a capacidade limitada do meu filho para comer, tornei-me numa espécie de chefe e consigo transformar alguns alimentos numa refeição mais compatível. Não reivindico que sou uma supermãe, mas acho que estou a apanhar muito bem o jeito.

O dia de hoje é uma dádiva

A melhor coisa a fazer é não pensar demasiado sobre o que nos espera pela frente. O autismo ensinou-me a viver o momento. Não gosto mesmo de pensar muito no futuro. Assusta-me. Só de pensar no que acontecerá ao meu filho depois de partir… desgasta-me. Costumava chorar e preocupar-me muito. Agora não. Não tão regularmente. Escolhi aproveitar o que está à minha frente, a viver dia após dia e a celebrar as coisas que o Vedant é capaz de fazer e os progressos que faz. Vivo no momento, para o momento, para o Vedant. Tento não me preocupar demasiado sobre coisas que não consigo controlar.

Sem mais julgamentos 


Empatia… é uma virtude que todos pretendemos ter, mas que nem todos a têm. Não estou a dizer que sou um “anjo da compaixão”, mas a minha habilidade de me conectar com alguém aumentou o dobro. Já não julgo logo. Tento meter-me no lugar das outras pessoas e ver as coisas numa diferente perspetiva… Tento mesmo. Isto é uma mudança da qual me orgulho. Fui vítima de julgamentos, por isso não posso permitir que seja culpada. Quando as pessoas julgaram o meu marido e eu por todas as vezes que o Vedant teve uma crise ou um comportamento, eu sei como é. Não tem de andar com um papel na testa para dizer às pessoas a sua história. Não deveria ter de o fazer. É suposto que as pessoas ou entendam, ofereçam ajuda de alguma maneira, ou se meterem nas suas próprias vidas. Com o autismo do meu filho encontrei uma maneira melhor de me conectar com os outros.
Os pais que tem um filho com problemas para dormir sabem bem o luxo que é ter uma boa noite de sono. Dizem que as pessoas que dormem menos são bem-sucedidas. Bem, tenho a parte “dormir menos” conquistada; agora só estou à esperada de ser bem-sucedida. Acredito que o meu filho me fez mais forte, mais doce e uma pessoa mais confiante. As mudanças não aconteceram de um dia para o outro. O meu filho lidera o caminho para ser a pessoa que devo ser, por isso posso ver os nossos desafios nos olhos e dizer-lhes que estou pronto.
Estamos prontos.

The Mighty