Se o mundo fosse feito para mim…

Se o mundo fosse feito para mim, não haveria nada de “errado” comigo. Seria feliz, segura e confiante, e bem-sucedida.

Se o mundo fosse feito para mim, quando conheço pessoas não haveria expectativas de contacto físico ou conversa fiada. Poderíamos nos ignorar uns aos outros com um aceitável aceno ou lançarmos-nos para uma conversa profunda e significativa.
Se o mundo fosse feito para mim, todos nós nos sentávamos ao lado uns dos outros, não o contrário. As coisas seriam baseadas em palavras literais, não por gestos e expressões deduzíeis.
Se o mundo fosse feito para mim, haveria um dia de folga obrigatório depois de um evento social. Para que todos nós simplesmente tivéssemos tempo para recarregar energias e processar as coisas.
Se o mundo fosse feito para mim, o trabalho seria sobre trabalhar e nada mais. Não haveria a interação necessária que está subjacente. A minha produtividade iria disparar. Os dias de trabalho seriam reduzidos. O tempo livre seria partilhado.
Se este mundo fosse feito para mim, você iria-me perguntar porque estou constantemente a mexer num pedaço de qualquer coisa que eu precise naquele dia e eu respondia-lhe com um sorriso. Você rir-se-ia e aceitaria isso. Eu iria gostar mais de si.
Se o mundo fosse feito para me, auscultadores com cancelamento de ruído seriam dados em locais sobrelotados, os comboios seriam maiores, as pessoas seriam proibidas de tocar nas outras pessoas que não conhecem sem pedirem autorização. (Não quero dizer de uma forma criminalizada. Nós temos isso e não resulta. Quero dizer, magicamente proibidas.)
Se o mundo fosse feito para mim, poderia tocar e divertir-me, e encontrar alegria em texturas que me agradam. E poderia esconder e manter-me longe daqueles que me enchem de dor e revolta.
Se o mundo fosse feito para mim, você não me iria perguntar como é que a roupa lhe fica, a não ser que quisesse uma opinião sincera.
Se o mundo fosse feito para mim, haveria uma bolsa de ar entre a minha casa e o mundo real. Uma zona de segurança para as invasões diárias. A alguma distância.
Se o mundo fosse feito para mim, qualquer convite teria um plano detalhado de onde, quando e como. Seria capaz de construir um plano e um mapa com um pouco mais de esforço da minha parte. Saberia o que estava a acontecer.
Se o mundo fosse feito para mim, as pessoas informar-me-iam se os planos precisassem de ser alterados. Enviar-me-iam uma mensagem e minimizariam a dor na minha cabeça enquanto andava às voltas para me conseguir adaptar.
Se o mundo fosse feito para mim, os encontros de família manter-me-iam segura. Tocar, abraçar, beijar seriam todos nos meus termos. Conversar não me iria fazer sentir um extraterrestre e sozinha. Seria seguro, gentil e amável.
Se o mundo fosse feito para mim, as verdadeiras regras seriam explícitas e as regras a fingir teriam uma explicação. Não me iria encontrar a seguir regras que todos sabem que não são reais.

Mas o mundo não foi feito para mim. É feito para as pessoas que gostam dessas coisas ou que conseguem lidar com elas, ou que não gostam, mas não se importam, ou não gostam e podem dizer que não gostam por razões que são validas no mundo de todos os outros.

O mundo não é feito para mim. Por isso, como uma pessoa com um cérebro fora do normal, tenho de encontrar uma maneira para me integrar. Às vezes pergunto-me se gostam do meu mundo, com a sua estrutura gentil e rotineira, a sua beleza e simplicidade, a sua honestidade e verdade, os seus padrões. Às vezes pergunto-me se sentiria falta do vosso mundo se ele desaparecesse. Embora seja cansativo e doloroso, como um metal frio, baço, todo ondulado e difícil de se apoiar, tem os seus encantos. Tem os seus momentos. Tem as suas alegrias.

Se o mundo fosse feito para mim, certificar-me-ia de que o mundo também pudesse ser feito para si.
The Mighty