E se as escolas se concentrassem em melhorar as relações em vez das notas dos testes?

Peter Smagorinsky, professor da Universidade da Geórgia, escreveu um artigo sobre uma jovem e promissora professora que escolheu deixar a educação. Ela voltou às salas de aula, mas num outro distrito da Geórgia.

Abaixo, Smagorinsky explica como o novo distrito, através do foco no aprimoramento das relações em vez dos resultados nos testes, revitalizou o entusiasmo da professora pelo ensino.

Por Peter Smagorinsky

 

Há um ano atrás, escrevi um artigo sobre uma fantástica professora de inglês do ensino secundário, na Geórgia, que, frustrada com os testes e com a padronização do ensino, decidiu deixar a profissão. Tinha participado num estudo que estou a fazer sobre o desenvolvimento da carreira de professor, com entrevistas semestrais desde 2010, quando ainda estava a especializar-se em educação.

Fico feliz por dizer que me contactou, na primavera, reportando o facto de que trabalhar no setor privado, por um ano, despoletou nela o desejo de regressar às salas de aula. O emprego foi agradável e ela gostou da rotina de começar o dia às 9h e terminar às 17h, sem ter de ficar até mais tarde a preencher formulários, tutorias, avaliações, planeamento de aulas, recuperar da exaustão e tendo a sua vida consumida pelo trabalho, até começar tudo de novo no dia seguinte.

Foi um bom descanso daquilo em que as aulas se tinham tornado mas, em última instância, era um pouco monótono e insatisfatório. Estava na hora de voltar para as crianças.

Recentemente, falamos durante cerca de 90 minutos sobre o seu primeiro semestre depois de voltar às salas de aula. Não voltou ao seu antigo posto, à sua antiga escola, ao seu antigo distrito, que considerava serem sufocantes para a sua criatividade e para o seu relacionamento com os alunos. O antigo distrito apostava num ensino baseado em testes, em que a eficácia do professor era avaliada pelas notas das provas, sem ter em conta em que ponto de situação estavam os alunos. Era precisamente isto que ela queria evitar.

O novo distrito contrasta bastante com o anterior. Na preparação das aulas, ainda antes do início das mesmas – no outono – o diretor falou sobre a importância das relações humanas acima de tudo – e não das notas dos testes. Ao invés disso, enfatizou o desenvolvimento e a estimulação de relações produtivas para o bom funcionamento da instituição.

A ênfase nas relações foi a principal força motriz do seu regresso ao ensino e do seu contentamento com este novo cargo. A escola não é perfeita, claro: há algumas políticas com as quais ela não concorda, por exemplo. Porém, adora o facto de ter imensa liberdade no que toca ao “que ensinar” e ao “como ensinar”. Gosta imenso dos seus alunos e da ideia de que a sua tarefa principal é basear o ensino nas relações que desenvolve com eles.

Muitas das crianças vêm de famílias com poucas possibilidades, são imigrantes, têm desafios pessoais e, em geral, representam os grupos demográficos cujas pontuações nos testes costumam espelhar mal os corpos docentes e as administrações. No entanto, lá estava o diretor para dizer aos professores que dessem menos importância às pontuações dos testes e se concentrassem em que as crianças se sentissem bem na escola, mas também os professores, psicólogos, diretores e estou certo de que também o pessoal do bar, seguranças e todos os outros funcionários.

Mas então, o que é que ajuda os professores a promover estas relações? É útil comparar o atual distrito com aquele que a professora deixou há um ano, frustrada. A antiga administração havia então criado muitas barreiras entre alunos e professores, que resultavam numa alienação entre uns e outros.

A padronização presente na escola anterior reduziu a flexibilidade de ensino, com base naquilo que a professora acreditava que os alunos precisavam. Uma barreira curricular deste tipo pressupõe que todos os estudantes do distrito (e de outros que comprem os mesmos materiais a empresas ligadas à área da educação) têm interesses e necessidades idênticos. Qualquer um que tenha criado dois filhos debaixo do mesmo teto sabe que até mesmo crianças com laços mais próximos têm necessidades diferentes e essas necessidades são, também elas, provavelmente, muito diferentes daquelas que um escritor de manuais didáticos oferece.

Tornar a educação “dependente” dos manuais e dos conteúdos produto de avaliação, em vez de ser sensível ao que os professores sabem sobre as crianças, afasta professores, crianças e escola. Numa escola como aquela em que a professora está atualmente, com a maioria dos estudantes sendo de cor e cujo legado tem pouca representação nos manuais e outros produtos corporativos, a probabilidade de distanciamento da instituição seria grande.

Os testes reduzem ainda mais a possibilidade de construir e cultivar boas relações com os alunos. Essas relações poderiam, por sua vez, levar a perceções que resultariam num ensino mais direcionado. Os testes são um obstáculo às relações, na medida em que distorcem o ensino em direção às formas mais redutoras e menos atrativas de pensar: decidir qual é a correta de entre quatro opções de escolha múltipla numa questão a que o aluno tem pouco interesse em responder.

A professora que entrevistei afirma que essa enfatização desencoraja os professores a ensinar sob qualquer forma que não tenha sido ainda testada. Este requisito é uma ameaça ao pensamento aberto, criativo e construtivo, concentrando-se em “escolher a opção correta das quatro disponíveis” para perguntas irrelevantes, apresentadas apenas com a finalidade de avaliar. As crianças detetam essa farsa rapidamente. É uma vergonha que os políticos sejam tão teimosos e não entendam aquilo que qualquer adolescente saberia explicar num segundo.

As relações não se desenvolvem através de opções de escolha limitada. Decorrem da interação genuína, do ouvir-se mutuamente, da generosidade, do cuidar, da capacidade de resposta às necessidades e esperanças emergentes e do pensamento construtivo em relação aos desafios compartilhados. Estes são processos fluídos e não restritos a quatro opções. Ao apresentar o ensino e a aprendizagem como estáticos, com respostas fixas a questões imutáveis, a possibilidade de formar cidadãos ativos num mundo social tumultuoso fica prejudicada.

Presencio frequentemente a falta de vontade e coragem dos administradores em reverter os métodos de avaliação, bem como a sua fundamentação em medidas típicas do mundo dos negócios, que reduzem ações complexas a simples números. Há, porém, pelo menos, um distrito na Geórgia onde o diretor rejeita as premissas por detrás dessa suposição, e que insiste que o bom ensino começa com a criação de relações saudáveis com as crianças.

Gostaria que houvesse muitos mais sistemas escolares com um líder assim. Suspeito que a maioria dos professores concordaria comigo, e que as crianças se interessariam muito mais pela escola se as tais barreiras à construção de boas relações fossem removidas.

Fonte: https://goo.gl/1zwdzL

Traduzido por: André Gomes