COMPORTAMENTOS AGRESSIVOS OU ENERGIA INTENSA?

Quando um pai descreve o seu filho como “agressivo”, quer dizer que ele está a bater, morder, arranhar, beliscar, puxar o cabelo, cuspir na cara das pessoas, dar estalos, pontapear e, geralmente, a usar força física. Este termo também é usado se a criança estiver a morder a sua própria mão, a bater com a cabeça ou a bater na sua própria cabeça, entre outros comportamentos autoagressivos.

No dicionário, “Agressivo” é definido da seguinte forma: “Caracterizado por ou tendendo para ofensivas não provocadas, ataques, invasões ou semelhantes; militantemente ou de forma ameaçadora: atos agressivos contra um país vizinho.”

Assim, quando usamos esta palavra para descrever o comportamento dos nossos filhos, estamos a dizer que eles estão prestes a atacar-nos. Quando eles se estão a magoar, acreditamos que se estão a atacar de maneira não provocada?

“Violento” é outra palavra usada para descrever os comportamentos listados acima. Muitas vezes, tenho pais que procuram a minha ajuda e que dizem coisas como “O meu filho está a tornar-se violento” ou profissionais que dizem estar a trabalhar com “uma criança violenta”.

“Violento” é definido no dicionário da seguinte forma: “Ações extremamente fortes que visam prejudicar as pessoas ou que podem causar danos, usando ou envolvendo força para ferir ou atacar.”

Quando chamamos aos nossos filhos “violentos”, estamos a sugerir que eles nos pretendem ferir. Para mim, a palavra violento evoca imagens de assassinato e de guerra, não algo que eu atribuiria a uma criança com autismo.

No Centro de Tratamento de Autismo da América, sede do The Son-Rise Program®, não consideramos que as crianças nos estejam a atacar como a palavra “agressivo” sugere, elas não são inerentemente más, nem querem realmente magoar as outras pessoas. Acreditamos que elas estão a tentar cuidar de si próprias da única maneira que sabem. Não rotulamos esse comportamento como “agressivo” ou “violento”, mas sim como “energia intensa”. O rótulo “energia intensa” não tem nenhuma das associações de julgamento que as palavras “agressivo” ou “violento” têm e descreve, com maior precisão, o que está a acontecer.

Abaixo estão duas das razões mais comuns pelas quais o seu filho pode ter energia intensa. Compreender o motivo ajuda-o a implementar as estratégias mais eficazes para minimizar a energia intensa do seu filho, bem como os novos pensamentos e crenças que pode adotar para se sentir mais confortável com este aspeto do seu filho.

Energia intensa não surge “do nada”.

Os pais dizem-me que os seus filhos lhes batem sem motivo aparente e que isso acontece “do nada”. Nos meus 25 anos a trabalhar com crianças e adultos com autismo, fui atingida, estrangulada, pontapeada, beliscada, mordida, esbofeteada e arranhada por crianças pequenas e por adultos que eram muito mais altos e pesados do que eu. O meu treino no Centro de Tratamento de Autismo da América ensinou-me como realmente observar uma criança e perceber o que está a acontecer com ela e a relação entre o que eu fiz e o que eles fizeram. Desde então, nunca trabalhei ou observei uma criança que não desse sinais claros de que estava prestes bater-me a mim, ao terapeuta com quem estavam a trabalhar ou aos seus pais.

Esta pode ser uma notícia maravilhosa para si, visto que significa que tudo o que tem a fazer é observar o seu filho e tornar-se mais claro na compreensão e a perceber o que faz.

 

RAZÃO # 1 – DESAFIOS SENSORIAIS

Sabemos que o sistema sensorial dos nossos filhos é muito desafiado. Eles podem ter energia que se está a acumular dentro deles e que não sabem libertar com sucesso. Quando temos excesso de energia nos nossos corpos, fazemos algum exercício para ajudar a libertá-la. As crianças com autismo parecem não entender o que está a acontecer nos seus corpos e criam, assim, maneiras únicas e interessantes de aliviar a acumulação de energia. Elas mordem, beliscam e apertam alguém com muita determinação e força. A ação de morder ou beliscar permite-lhes libertar essa energia, ajudando-os a organizarem-se fisicamente.

 

Tente este exercício:

  1. Encontre um objeto, como uma bola de borracha ou uma toalhinha embebida em água.

-> Morda o objeto. Sim, exatamente. Afunde os seus dentes no objeto com todo o seu poder.

-> Faça-o três vezes, cada vez durante, pelo menos, 20 segundos.

  1. Junte suas mãos e realmente aperte-as, mais uma vez, não com meio-entusiasmo, mas com todas as suas forças.

-> Faça isso três vezes, cada vez com a duração de, pelo menos, 20 segundos.

  1. Escreva como se sentiu ao fazer isso.

 

O que eu sinto e o que as pessoas relatam é uma libertação de tensão acumulada. É bom fazer isto! E é útil paro o corpo. Os nossos filhos fazem-no pelas mesmas razões. No entanto, a sua necessidade de libertar energia dos seus corpos é muito maior do que a nossa. O truque aqui é ajudar o nosso filho a usar algo que não seja outra pessoa para liberar suas energias.

Eles também podem criar o seu próprio estímulo sensorial, abanando a cabeça, mordendo a parte macia na base dos polegares, batendo nas coxas e batendo os pés. Neste caso, vemos as crianças a agirem como se fossem os seus próprios terapeutas ocupacionais, a tentarem ajudar ao equilíbrio dos seus sistemas sensoriais.

 

Quais são os sinais?

Pode perceber que o seu filho está a ter um dos seguintes comportamentos mesmo antes de ele lhe bater ou beliscar, ou pode ter reparado num aumento destes comportamentos no período de 30 minutos antes da energia intensa.

-> Pular para cima e para baixo intensamente.

-> Enrijecer parte do seu corpo, por exemplo, a cara, tanto que pode tremer um pouco.

-> Bater qualquer parte do seu corpo mais vigorosamente com a sua própria mão ou um objeto.

-> Correr pela casa ou sala com mais energia.

-> Gritos soam mais alto e mais longos do que o normal.

-> Tornar-se mais intenso e rápido a recitar os seus scripts de filmes ou livros.

-> Fazer perguntas com tom de urgência, mesmo sabendo que eles sabem a resposta.

> Entram num padrão contrário, onde pedem algo, mas depois dizem que não quando lho quer dar, e depois pedem de novo e recusam quando volta a oferecer, e assim por diante.

Se não tiver a certeza daquilo que o seu filho faz no período de tempo antes de ter energia intensa, torne-se um detetive, leve o seu bloco de notas consigo e comece a gravar o que vê. Ao perceber o que acontece antes e depois de o seu filho ter energia intensa, obterá dicas valiosas sobre o motivo pelo qual eles o fazem. A partir do momento em que sabemos o porquê, podemos aplicar as estratégias mais úteis para ajudá-los. Queremos cuidar da razão subjacente para a “energia intensa”, em vez de simplesmente gerir os sintomas.

 

O que fazer?

A ideia aqui é dar-lhes o estímulo sensorial que eles procuram ao longo do dia, para que não se desenvolva até ao momento em que eles o obterão através da “energia intensa”.

Pode fazer isso:

-> Começando a apertar as mãos, os pés ou a cabeça do seu filho.

-> Iniciando um abraço de urso: sentado atrás do seu filho, envolve seus braços e pernas em volta dele para que possa dar um grande aperto no corpo.

-> Fazendo rolar uma bola de terapia grande sobre o seu filho – esta é uma maneira fácil de dar um “abraço de urso” a uma criança maior ou mais velha.

-> Encorajar o seu filho a saltar num trampolim.

-> Para uma criança com idade superior a 14 anos, eu sugiro que se certifique de que ela faça muito exercício, como natação, corrida/longas caminhadas, salto num trampolim grande, algo em que ela realmente se esforce. Faça isto três vezes por semana.

Pode fazer qualquer uma das sugestões acima. Escolha uma que acha que o seu filho vai gostar mais. Ao fazer as três primeiras sugestões, deve fazer experiências com a intensidade em que oferece a pressão do abraço de urso, aperta ou rola a bola de terapia. Lentamente, aumente a pressão enquanto procura ter certeza de que seu filho está a gostar dela. Pela minha experiência, as crianças que estão a usar energia intensa por causa das suas necessidades sensoriais vão gostar de uma pressão muito profunda.

 

Como responder ao meu filho quando ele me bate por este motivo?

  1. Pense no seguinte:

-> Meu filho está a bater-me numa tentativa de cuidar do seu sistema sensorial.

-> Não significa nada sobre o amor ou respeito dele por mim.

-> Eu posso ajudar o meu filho, dando-lhe mais estímulos sensoriais para ajudá-lo a equilibrar o seu corpo.

Esses pensamentos ajudarão a prepará-lo para reagir de maneira pacífica, calma e amorosa.

  1. Aperte as mãos, a cabeça ou a mandíbula/maxilar.

-> Se eles estiverem a bater a cabeça em si, ofereça-se para apertar a cabeça deles… se eles estiverem a beliscá-lo, ofereça-se para apertar as mãos deles… se eles estiverem a mordê-lo, ofereça pressão na linha do maxilar. Explique-lhes que eles não têm de bater, beliscar ou encostar em si, e que ficaria feliz em apertá-los sempre que eles quiserem.

Agora conhece os sinais de aviso que deve ser capaz de dar ao seu filho a informação sensorial que ele procura antes de chegar ao estádio de morder, beliscar ou bater. Agarre uma mão antes de chegar até si para dar um aperto! Dê uma opção para ele morder quando vem na sua direção.

 

Dicas:

-> Quando estou a trabalhar com uma criança que gosta de morder muitas vezes enquanto me abraça e pode afundar os dentes no meu ombro, eu tenho sempre um pequeno brinquedo de mastigar no meu bolso que lhe posso oferecer, ou coloco almofadas debaixo da minha t-shirt para salvaguardar os meus ombros.

-> Se o seu filho conseguir mordê-lo, mova-se em direção à mordidela, em vez de se afastar. Por exemplo, se ele estiver a morder-lhe o braço, empurre o seu braço para dentro da mordidela, pois se puxar o braço para longe, vai doer mais. Use o polegar e o indicador e empurre os dois lados da linha do maxilar do seu filho, o que não o magoará e fará com que ele abra a boca instantaneamente.

 

RAZÃO # 2 – ELES ESTÃO A COMUNICAR

Bater, morder, esbofetear, cuspir, bater com a cabeça, morder-se a si mesmo pode simplesmente ser o seu filho a dizer que quer alguma coisa. Este pode ser o caso de uma criança que ainda não se tornou verbal e de uma criança que é altamente verbal. Se eles acreditam que as pessoas à sua volta conseguirão algo mais rápido se lhe baterem ou em si mesmos, então eles podem apertar o botão de avançar rapidamente fazendo exatamente isso.

 

Quais são os sinais?

-> Eles beliscam / batem / mordem logo depois de ter dito que eles não podem ter algo.

-> Eles estão a ter dificuldade em fazer com que os seus desejos sejam entendidos.

-> Eles batem em jogos diferentes, geralmente difíceis de jogar, e essa pode ser a maneira de reiniciar o jogo consigo.

O que acontece é que as pessoas ao seu redor começam a mexer-se mais rapidamente e “entendem” melhor as coisas quando as crianças batem. O adulto torna-se, de repente, mais recetivo porque quer evitar ser magoado. Uma criança pode começar a pensar – “ok, então a melhor maneira de conseguir mais do que eu quero é bater, assim todos me tentarão entender mais”.

Neste caso, é importante que se torne consciente não apenas de quando o seu filho estiver a usar energia intensa, mas também daquilo que está a fazer em resposta a isso.

 

Tente este exercício:

Responda as seguintes perguntas no contexto de responder ao seu filho quando ele lhe bate porque quer algo ou quando está a ter dificuldades em comunicar-lhe o que quer.

-> Como está a reagir o seu corpo? O seu coração bate mais rápido? As suas mãos começam a suar?

-> O que está a sentir? Zangado? Triste? Assustado? Feliz?

-> Como se move? Mais rápido? Mais devagar?

-> Dá ao seu filho o objeto ou atividade que ele estava a pedir?

-> Se não entende o que ele quere, oferece-lhe muitas coisas diferentes?

Depois comece a observar os seus outros membros da família a interagir com o seu filho, como eles reagem quando ele lhes bate. Informe-se na escola ou no programa de terapia do seu filho sobre como eles respondem quando ele os atinge.

Se o seu filho está a bater para tentar comunicar um desejo, é porque alguém nalgum lugar está a responder rapidamente a essa comunicação.

 

O que fazer?

  1. Pense no seguinte:

-> O meu filho é esperto! Ele está a tentar conseguir o que quer pelo caminho mais rápido possível.

-> Isto não significa nada sobre mim.

-> Eu sei o que fazer. Eu posso ajudar o meu filho ao mover-me lentamente e deixá-lo saber que eu não o entendo quando ele me bate.

  1. Mova-se devagar.

Isto é muito importante. Queremos mostrar aos nossos filhos que qualquer forma de energia intensa não os ajudará a conseguir o que eles querem mais rápido, na verdade, torna as pessoas mais lentas.

  1. Explique

Diga ao seu filho que não entende o que ele quer dizer quando ele lhe bate. Explique também que mesmo que ele lhe bata, isso não vai mudar a situação e não vai levá-lo na mesma ao objetivo dele.

  1. Saia do caminho e dê uma alternativa.

Agora que sabe por que é que o seu filho se comporta desta maneira, esteja preparado. Se ele quer algo para o qual a resposta é não:

-> Saiba que ele pode bater-lhe.

-> Saia do caminho, para que ele não possa alcançá-lo com as mãos, o que lhe dará tempo para se proteger, pegando nas mãos dele e apertando-as, ou oferecendo algo diferente no qual ele possa bater, como uma bola ou um tambor.

-> Se o seu filho for adulto ou maior que você, tenha sempre uma grande bola de terapia ou uma grande almofada disponível que possa colocar entre si e o seu filho para se proteger. Se acha que ele lhe pode bater, coloque o objeto entre si e ele para que esteja pronto para sua proteção. Acredite na sua força e mantenha-o no lugar com toda a sua determinação, não o largue.

  1. Não dê ao seu filho aquilo pelo qual ele lhe bateu.

Isto é muito importante! Quer ajudar o seu filho a entender que energia intensiva de qualquer tipo não conseguirá o que ele quer. Esta é uma habilidade muito importante para ensinar ao seu filho, que o irá servir socialmente nos próximos anos.

Se quiser dar a coisa pela qual ele lhe tentou bater, certifique-se que pede que ele se comunique de uma maneira diferente antes de lha dar. Peça-lhe que aponte para ela ou que use uma aproximação da palavra ou a própria palavra. Congratule-o por fazer isso e certifique-se de que lhe explica que lha está a dar porque ele comunicou dessa maneira diferente, e não porque ele o atingiu.

  1. Seja Persistente e Consistente.

Já tem um histórico de movimento rápido quando o seu filho lhe bate, portanto, pode levar algum tempo para ele perceber que essa não vai continuar a ser maneira como responde. Continue a responder da forma descrita acima até que eles percebam esse conceito.

Se demorar mais do que duas semanas para o seu filho alterar esse comportamento, certifique-se de que está a seguir todas as etapas descritas acima. Talvez tenha deixado um passo crucial de fora? Se não, é mais provável que alguém para além de si responda de maneira rápida. Seja um detetive e descubra quem é essa pessoa.

 

Fonte: https://goo.gl/ZzWRgk

Traduzido por: Sara Pereira