Auto-agressividade ou comunicação?

Muitos de vocês já passaram por um momento semelhante – ver uma criança a fazer algo que pode ser prejudicial: a bater com a cabeça na parede, mais e mais e mais até fazer um hematoma ou um golpe na testa; a sua filha a morder a própria mão com tanta força que deixa a marca dos dentes; o seu filho a cerrar o punho e dar um murro na própria cabeça quando não lhe dão o que quer. É um momento em que a maioria dos pais me diz que se sente preocupado e com medo, enquanto pensa como manter as suas crianças em segurança. É um momento em que a maioria dos pais se costuma culpar: “Se eu soubesse como cuidar melhor do meu filho, ele não faria isso”.

Claro que queremos manter as nossas crianças seguras, isso é o mais importante. Se estou com uma criança na sala  (grande ou pequena, jovem ou velha), e ele ou ela está a ter um desses comportamentos, primeiro vou-lhe oferecer uma maneira de estar segura. Por exemplo, se uma criança está a bater com a cabeça na parede, vou pegar numa almofada ou num cobertor e segurá-lo entre ele e a parede, para suavizar a superfície. Ou, se uma criança estiver a morder a mão com força, vou-lhe oferecer outras opções para mastigar, como um tubo ou uma esponja mastigável, para que ela tenha outra coisa para morder que não seja a própria mão. Ou se uma criança tiver um brinquedo duro e estiver a usar esse brinquedo para bater em si mesmo, eu, com calma, retiro-lhe o brinquedo e coloco-o fora do seu alcance.

No entanto, é surpreendente: na maioria das vezes, quando oferecemos uma alternativa a estas crianças, elas não a querem. Simplesmente encontram outro lugar na parede, ignorando a nossa oferta. O que levanta a questão: porque é que as crianças continuam a fazer algo que infringe tanta dor?

Talvez esteja na hora de vermos “os comportamentos de autoagressão” de forma diferente. E se estes comportamentos não são de todo prejudiciais? Em 99% das crianças com quem trabalhamos, elas apenas encontraram uma maneira de parecer que se estão a magoar, quando na verdade não dói nada. Apenas por diversão, experimente, vá e bata com a sua testa contra a parede. Repare que o seu filho geralmente bate com a frente da testa, a parte mais dura do crânio. Repare que o seu filho morde a parte grande e macia da mão logo por baixo do polegar. Tente, morda essa parte da mão com muita força. Provavelmente vai deixar a marca dos seus dentes, mas vai descobrir que isso não provoca dor. As nossas crianças são incrivelmente inteligente, e elas simplesmente encontraram maneiras de tentar mover o mundo e conseguir o que querem.

Além disso, temos que ter em mente que as nossas crianças têm corpos e sistemas sensoriais diferentes dos nossos. Muitas das crianças com quem trabalhamos são hiposensíveis, ou seja não sentem as sensações tão facilmente como nós e, por isso, anseiam por um aumento de pressão nas mãos, nos pés e na cabeça. Elas aguentam (e pedem repetidamente) níveis de pressão que muitas vezes não nos parecem saudáveis, o que indica que os seus corpos sentem as coisas de forma diferente. Eu sei de crianças que relataram uma sensação de dormência nas extremidades (mãos, pés e cabeça), por isso faz sentido que elas necessitem de mais, de forma a sentirem os pés ou as mãos.

Então, se tivermos em mente que os nossos filhos são incrivelmente inteligentes e têm sistemas sensoriais diferentes dos nossos, podemos criar uma perspetiva completamente nova. Uma criança que demonstra comportamentos “autoprejudiciais” pode estar a fazer isso simplesmente para comunicar connosco, para constantemente nos lembrar de ouvir. Então, vamos ouvir! Vamos descobrir o que é que eles realmente nos estão a dizer para lhes podermos oferecer o que realmente estão a pedir. Vamos-nos manter calmos e acessíveis, e transformar a nossa perspetiva em curiosidade e desejo de ajudar. Ao fazer isso, podemos ajudá-los a não manifestarem estes comportamentos.

Através destes comportamentos “autoprejudiciais”, as nossas crianças estão a dizer:

  1. Eu quero mais controlo. Por vezes o mundo há minha volta é “esmagador” e fora do meu controlo. E eu quero ter mais controlo da minha vida. Eu bato com a minha cabeça quando me levam lá para fora porque lá há muito estímulo. Eu bato com a minha cabeça quando o meu irmão está a fazer muito barulho porque sobrecarrega o meu cérebro. Eu quero menos estimulação e mais controlo da minha vida.
  2. O meu corpo precisa de “informações físicas”. Às vezes não me parece bem, então bato com a minha cabeça de forma aliviar a pressão ou para me ajudar a sentir o meu corpo. Ele muda todos os dias, eu não posso controlar as sensações que sinto no corpo, por isso mordo a minha mão ou bato com a cabeça para tentar ajudar o meu corpo a sentir-se melhor.

Como podemos ajudar:

  1. Se já tem uma sala livre de estímulos em casa, permita que o seu filho passe parte do seu tempo lá. Este é o melhor lugar para ele se sentir menos sobrecarregado. Muitas das crianças que batem com a cabeça, mordem as mãos, etc. reduzem ou eliminam imediatamente estes comportamentos quando diariamente passam parte do seu tempo na sala livre de estímulos. Se ainda não tem essa sala, arranje um espaço tranquilo em casa onde o seu filho possa estar a relaxar sem se sentir sobrecarregado. Pode estar com ele ou pode permitir que este seja o seu tempo sozinho na sala ou num espaço silencioso.
  2. Dê ao/à seu/sua filho/a mais controlo e lembre-o/a de quanto controlo ele/ela tem. Podemos oferecer aos nossos filhos mais controlo enquanto estão na sala: podemos ficar calados quando eles nos pedem, podemos juntar-nos aos seus comportamentos repetitivos e reproduzi-los, podemos dar-lhes os brinquedos que eles querem, só podemos jogar os jogos que eles querem que nós joguemos. Quanto mais controlo lhes damos, mais os nossos filhos se sentirão no controlo e menor vai ser a necessidade de bater na cabeça. E quando lhe der o controlo, mostre-lhe que o fez: “Vês como isso foi rápido! Quando me disseste que não, eu arrumei-o rapidamente. Não é bom seres tu a mandar aqui? ”.
  3. Dê ao seu filho mais “informação” física. Se o seu filho estiver a bater a cabeça, dê-lhe alguns apertos na cabeça, mandíbula e pescoço. O seu filho pode querer apertos ou arranhões muito leves, ou querer que aplique mais pressão. Ou o seu filho pode recusar os apertos na cabeça, mas permitir que aperte os pés. Faça apenas o que o seu filho permitir, lembre-se que o principal é dar-lhe o controlo. Se o seu filho bate com a cabeça frequentemente, faça uma pesquisa sobre a terapia craniossacral. É uma forma de massagem que ajuda a melhorar o alinhamento do crânio e, portanto, permite que ele se sinta mais confortável.
  4. Analise a dieta do seu filho. Se o seu filho bate com a cabeça ou morde-se a si mesmo com frequência, pode ser uma reação a algo que ele está a comer. Muitas vezes, as nossas crianças batem com a cabeça por causa da ingestão de açúcar: muito açúcar processado ou muito açúcar proveniente da fruta. As nossas crianças têm corpos mais sensíveis do que nossos e é frequente sofrerem de uma alergia alimentar ou sensibilidade ao açúcar, levando à manifestação deste tipo de comportamentos.

 

Com amor,

Carolina

 

Traduzido por: Eliana Joaquim

Fonte: https://goo.gl/pw2Q5A