Serão o trigo ou os produtos lácteos capazes de causar autismo? 

By Lisa Jo Rudy , Updated June 29, 2018 

Poderá o consumo de glúten (proveniente do trigo) ou da caseína (proveniente do leite) realmente causar autismo? Diversos livros e fontes online recomendam que pessoas portadoras de autismo eliminem o trigo e os lacticínios das suas dietas. Alguns terapeutas, pais, médicos e escritores afirmam que conhecem uma criança que, como resultado dessa dieta, terá “recuperado” completamente do autismo. No entanto, médicos e cientistas, tendem a ser cépticos sobre as alegações de “cura” resultantes desta mudança na dieta. 

O trigo e os lacticínios puderam realmente ser os “culpados” de pelo menos alguns casos de autismo?

A teoria dos opiáceos: Uma teoria popular que segue essa lógica: 
O glúten e a caseína contêm proteínas que se decompõem em moléculas idênticas a drogas semelhantes ao ópio. 
As crianças com autismo têm o sistema digestivo comprometido, nomeadamente o ” síndrome do intestino permeável”. Este é de diagnóstico controverso. Basicamente, significa que os intestinos da pessoa são mais permeáveis do que o “normal”, permitindo que moléculas de grande dimensão (como as proteínas) sejam absorvidas nos intestinos. Assim, em vez de serem excretadas, estas moléculas são absorvidas para a corrente sanguínea. 

Existe alguma veracidade na teoria dos opiáceos no autismo? 
Não é fácil acompanhar todas as investigações para cada elemento da teoria dos opiáceos. No entanto, aqui estão as informações que consegui recolher até agora: 

  • De facto, o trigo e os lacticínios transformam-se em peptídeos muito semelhantes a drogas semelhantes ao ópio. Estes são chamados de gluteomorfinas e casomorfinas. 
  • Algumas crianças com autismo (não todas) têm problemas gastrointestinais. Um subgrupo dessas crianças tem síndrome do intestino permeável.
  • Alguns estudos mostram que estes péptidos são encontrados em quantidades altas pouco comuns na urina das crianças com autismo, sendo que estes estudos incluíram apenas crianças com problemas gastrointestinais. Num estudo que incluiu um grupo mais amplo de crianças com autismo já não se observou um aumento destes péptidos na urina.
  • Existem também estudos que mostram que o cérebro de ratos injectados com casomorfinas é activado em áreas afectadas pelo autismo (embora ainda existam grandes questões sobre quais as áreas do cérebro que são realmente afectadas pelo autismo, o que me faz questionar o  resultado deste estudo em particular).
  • Não consegui encontrar nenhuma evidência para comprovar que as gluteomorfinas e as casomorfinas causam comportamentos de autismo. Existem estudos em que analisaram o impacto de uma droga que bloqueia o efeito das gluteomorfinas e das casomorfinas no cérebro, a Naltrexona (não aprovada nos EUA). Os investigadores consideraram que não existem fundamentos suficientes para afirmar que a Naltrexona é eficaz no tratamento dos sintomas do autismo.
  • Diversos estudos demonstram que uma dieta sem glúten nem caseínas é eficaz no tratamento dos sintomas do autismo, embora estudos igualmente fidedignos pareçam demonstrar o contrário.

Para verificar a minha própria pesquisa, consultei a Dra. Cynthia Molloy, Professora Assistente de Pediatria no Centro de Epidemiologia e Bioestatística do Centro Médico do Hospital Infantil de Cincinnati. Aqui está a resposta dela:

“As proteínas podem ter algum impacto nos problemas gastrointestinais embora não tenha sido claramente demonstrado. Não existem nenhuma evidência empírica que sustente uma relação causal entre estas proteínas e o autismo. É pura especulação afirmar que uma criança experiencie um efeito opiáceo proveniente do consumo de alimentos. Pesando todas estas evidências, a minha opinião é que a teoria dos opiáceos no autismo é pouco credível, embora a dieta sem glúten nem caseínas seja promissora.”

Porquê é que a dieta GFCF parece funcionar?

As dietas de GFCF são difíceis e caras. Exigem muita dedicação e conhecimento sendo que a maioria dos profissionais sugere que a dieta seja implementada durante pelo menos três meses. Deste modo, é possível que pais desesperados em obter resultados relatam melhorias que podem ou não estar a acontecer, ou estar associadas à dieta, uma vez que muitas crianças adquirem novas capacidades durante esse período, com ou sem dietas especiais.

Mas há mais nesta história para além do pensamento positivo. A alergia ao glúten e à caseína não é incomum, manifestando-se frequentemente através de diarreias, prisão de ventre, inchaço e outros sintomas. Cerca de 19 a 20 % das crianças com autismo aparenta sofrer de problemas gastrointestinais significativos.

Se estes problemas são causados pelo seu consumo então a sua eliminação da dieta deveria resultar numa melhoria significativa. Removendo uma fonte de desconforto e ansiedade constante, os pais podem vir a observar uma melhoria a nível comportamental bem como a diminuição dos níveis de ansiedade.

 

Fonte: https://goo.gl/Wbj8nP

Traduzido por: Eliana Joaquim