Assumir (Ideias Pré-Concebidas)

“O meu filho vai detestar ficar todo o dia no playroom

“Quando bate no peito é porque está frustrado”
“O meu filho detesta que as pessoas cantem!”
“Nunca há-de comer brócolos!”
“O meu filho não vai fazer essa brincadeira!”
Estas são algumas das centenas de afirmações que ouvi de pais que estão a fazer o Programa Son-Rise. Estas afirmações não são factos, são apenas ideias pré-concebidas que se baseiam nas nossas próprias suposições e normalmente têm mais a ver com a ideia do “copo meio vazio” do que com do “copo meio cheio”, ou seja, com o que o nosso filho não quer e não consegue fazer e não com o que o nosso filho quer e consegue fazer. A não ser que os nossos filhos nos digam o que estão a pensar, ou a sentir, não conseguimos saber realmente o que estão a pensar e a sentir.
Alguma vez ouviu isto:
ASSUME (desdobrando a palavra inglesa dá uma coisa do género): faz um “ass” (imbecil) de “u” (ti) e de “me” (mim)? Bem, não é bem assim, é mais “limita-te a ti e a mim”.  Quando presumo o que o meu filho está a pensar, ou a sentir, estou a limitar a minha resposta a isso, bem como as maravilhosas maneiras como o posso ajudar.
Por exemplo, o meu filho pede-me mais uma bolacha – já comeu seis. Digo-lhe que já comeu seis e não quero que coma mais. Choraminga e atira-se para o chão. Presumo que está infeliz. Sendo mãe é óbvio que não quero que se sinta infeliz e, portanto, tento acabar com essa infelicidade dando-lhe mais uma bolacha. Resumindo, o meu filho aprendeu uma forma de comunicação que resulta bem, mas que limita a sua capacidade para usar outras formas de comunicação…a linguagem. Acabei de limitar a capacidade do meu filho para aprender e crescer e perdi uma oportunidade de o ensinar. O que lhe ensinei foi que o choro e a birra, ou o mostrar-se infeliz, leva a obter o que quer. Isto não lhe vai ser mais útil na vida do que comunicar de maneira a que as pessoas compreendam mais facilmente…através da linguagem.
Como os nossos filhos também são capazes de ter dificuldade em processar e comunicar o que querem de uma maneira rápida e eficaz, escolhem a maneira mais fácil e mais rápida de conseguirem o que querem. Resumindo: presumi o que o meu filho estava a pensar e a minha intenção foi mudar o que ele sentia em vez de o ajudar a aprender uma maneira mais eficaz de comunicar. Resultado: a presunção de que sabia o que ele estava a sentir apenas nos veio limitar aos dois.
Um dia, uma mãe contou-me uma história sobre o filho de quatro anos com autismo quando o levava a um parque cheio de gente: por momentos, o filho parecia estar a divertir-se nos baloiços, mas logo a seguir ia ter com a menina mais bonita e batia-lhe. A primeira coisa que esta mãe pensou foi que o filho detestava meninas bonitas…algo que ele nunca tinha exprimido. Depois de frequentar o Start-Up do Programa Son-Rise, a mãe aprendeu a pôr de lado essas ideias pré-concebidas e percebeu que, de cada vez que isso acontecia, ela ficava embaraçada e levava-o rapidamente para fora do parque, para casa. Talvez o filho se sentisse excessivamente estimulado pelo parque e quisesse ir embora mas não conseguisse comunicar isso à mãe e, assim, o bater nas meninas passou a ser a maneira mais eficaz de comunicar que se queria ir embora.
Uma maneira de se inspirar a si e à sua equipa do Programa Son-Rise no sentido de eliminar as ideias pré-concebidas, é passarem a observar bem o que o vosso filho está realmente a fazer (e não decidirem que sabem o que ele está a pensar e a sentir quando estiver a discutir o seu filho com a equipa).
Por exemplo:
  • “O Johnny estava a chorar junto do frigorífico” em vez de “O
  • Johnny estava infeliz junto do frigorífico”
  • “A Sarah não reagiu quando eu cantei ‘The Wheels on the Bus’” em vez de “A Sarah detestou quando eu cantei ‘The Wheels on the Bus’”.
  • “Ben, estou a ver-te a bater no peito e não percebo o que isso significa” em vez de “Ben, sei que estás frustrado porque queres sair do playroom”
  • Para ajudar a compreender os comportamentos dos nossos filhos, há que ver o que estava a acontecer imediatamente antes de um determinado comportamento e o que aconteceu logo a seguir.

 

Por exemplo:
  • “A Sarah estava na sua estereotipia com o serviço de chá de brincar quando eu cantei ‘The Wheels on the Bus’ e isso ajudou-me a compreender que a ausência de reacção dela à minha canção talvez não tivesse nada a ver com o não gostar da canção…mas antes que, nesse momento, estava mais exclusiva e não estava disposta a interagir.

 

Respeitar a inteligência e capacidade dos nossos filhos para se aproximarem ou se afastarem intencionalmente do que querem é uma mudança de atitude que elimina as “ideias pré-concebidas” e nos permite encontrar maneiras de os ajudar.
Porque presumimos?
  • Para nos protegermos: para sentirmos que somos bons pais…dando-lhes o que eles querem e fazendo-os felizes…se o meu filho estiver feliz, eu sou um bom pai ou uma boa mãe.
  • Para mostrar que nos preocupamos: Ajudar o meu filho significa conhecer e saber o que está a pensar e a sentir.
  • Porque sabemos por que sentimos ou fazemos certas coisas em determinadas situações: “Se bati em alguém é porque estava zangado/a”. Os nossos filhos são diferentes de nós, aprendem de maneira diferente. Os meus motivos não têm nada a ver com os motivos do meu filho/a.
  • Voltando às ideias pré-concebidas do início deste artigo…veremos como estas ideias pré-concebidas não passam de uma ilusão:
  • “ O meu filho vai detestar estar todo o dia no playroom!”…Esta criança esteve feliz no playroom com os seus novos amigos durante 10 horas. Depois, na manhã seguinte, encaminha, todo contente, os pais para o playroom.
  • “Ele está frustrado quando bate no peito!”… Esta criança continuou a bater, feliz, no peito, periodicamente durante a semana e a nossa equipa tentou, de várias maneiras, reagir a isso. Ao juntar-se a ele quando bate no peito, a equipa apercebe-se de que era uma estereotipia. Ele começou a fazer isso cada vez menos vezes.
  • “O meu filho detesta ouvir pessoas a cantar!”… A criança acabou por se divertir e participar em muitas canções juntamente com a nossa equipa.
  • “Nunca há-de comer brócolos!” … Esta criança acabou por tocar, cheirar e provar brócolos pela primeira vez e, no fim dessa semana, já comia vários pedaços de brócolos de uma só vez.
  • “O meu filho não vai querer jogar esse jogo!” … Da terceira vez que se levou o jogo para o playroom, olhou para ele, pôs-se a analisá-lo e depois interagiu connosco durante 20 minutos.

 

Divirta-se a observar o seu filho com este novo olhar e ficará entusiasmado com o que vê!
Becky Damgaard
Coordenadora do Programa no Exterior
Professora do Son-Rise Program
Autism Treatment Center of America | http://www.autismtreatmentcenter.org/