Autismo e sexualidade!

A sexualidade é uma dimensão presente na vida de todos os seres humanos.

A sexualidade é complexa e inclui aspectos como relacionamentos afetivos, normas sociais, questões de saúde, gênero, reprodução, prevenção, amor, prazer, carinho, masturbação, sexo, regras culturais etc.

Adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) amadurecem fisicamente como seus pares neurotípicos, mas não têm os mesmos ganhos sociais e psicológicos compatíveis com a faixa etária que se encontram, afinal, esses adolescentes pouco participam de discussões com seus pares sobre o assunto e pouco compreendem as mensagens diretas e indiretas contidas nas interações entre amigos e contidas nos veículos de comunicação. A sociedade (familiares, professores, profissionais) entende tal discrepância como uma falta de preparo dos indivíduos com TEA a lidarem com a sexualidade (e não o contrário!), deixando-os à deriva nessa passagem tão delicada entre a infância e a adolescência; justamente quando se deparam com as modificações em seus corpos e com novas sensações (aumento da libido, ereção, ejaculação, entre outras) pertinentes a esse momento.

A pessoa com Autismo tem necessidade de expressar seus sentimentos de modo próprio e único, como qualquer pessoa.

A orientação sexual para pessoas com deficiência, deve ser um trabalho organizado com diversos objetivos: como por exemplo, à prevenção de gravidez indesejada, abuso sexual, doenças sexualmente transmissíveis, tudo passa primeiro pela proximidade afetiva e informações corretas sobre sexualidade, o aumento da compreensão sobre o próprio corpo, a orientação sobre os códigos do comportamento sexual, a melhora do relacionamento com sua família e os profissionais, favorecendo o desenvolvimento da identidade sexual.

A higiene pessoal e os cuidados íntimos devem ser enfatizados, é uma forma de desenvolver a auto-imagem e auto-estima, desenvolvendo a capacidade de adequação social e o sentimento de posse do corpo.

A educação sexual deve ser incluída na educação geral, integradas à estimulação sensório-motora, intelectual e das capacidades adaptativas ao meio social, de modo natural. Os recursos pedagógicos poderão ser lúdicos, criativos e desportivos como, por exemplo, os jogos, a música, o esporte, a pintura, modelagem, de modo adequado à idade e ao nível de compreensão, são elementos integradores e interativos para trabalhar o corpo, crescimento, diferenças sexuais, rivalidades, atrações, etc…

Ballan e Freyer (2017), sugeriram o uso de histórias sociais, desenhos ilustrativos e videomodelação não só para o aprendizado da masturbação, mas também para o ensino da higiene com a menstruação, o uso de absorventes e até para o ensino da relação sexual. Técnicas de autocontrole e automonitoramento (por exemplo, Salter e Croce, 2007) também podem ser efetivas para ajudar os adolescentes a controlarem seus impulsos. Para os adolescentes com autismo leve, desenvolver as habilidades sociais e aperfeiçoar a habilidade de se colocar no lugar do outro, prevendo, antecipando suas intenções e comportamentos e, por fim, conseguir se comportar adequadamente diante dessa “leitura” social também parece ser bem promissor no desenvolvimento da sexualidade.

A pessoa com autismo vai precisar de apoios para compreender o mundo a sua volta de forma a desenvolverem sua identidade como jovem e futuro adulto libertando-se do modelo infantilizado, de maneira concreta, firme, vivenciando a experiência através de imagens, teatros, escrevendo, desenhando, expressando-se artisticamente;

Para podermos manejar as expressões sexuais inadequadas, precisamos observar alguns aspectos, tais como: quando ocorrem, em que contexto, em que lugar, qual a freqüência, e principalmente tentar descobrir qual o estímulo (interno ou ambiental) desencadeante da conduta em questão. A partir desses dados, estratégias podem ser cridas para tentar compreender, traduzir em linguagem verbal (escrita, gestual, simbólica, imagética, visual)  então construindo um manejo adequado para a expressão e compreensão do comportamento sexual.

Caso o pai ou mãe, cuidador seja ele qual for se deparar com o adolescente ou adulto com autismo se masturbando deve manter a calma e de forma tranquila encaminhara-lo a um local onde ele possa se tocar de forma a manter sua privacidade. Pode ser encaminhado ao quarto ou banheiro e orientá-lo que quando ele sentir essa vontade deve ser feito dessa forma e em local onde estiver sozinho.

Um ponto importante sobre a sexualidade, a masturbação ou o toque exacerbado não são comportamentos que devem ser classificados como inadequados. A inadequação pode ser referir apenas ao local onde ela é manifesta, com quem ela é manifesta e o momento no qual ela é manifesta. Justamente por isso, alguns autores como Ballan e Freyer (2017) têm sugerido a terminologia comportamentos esperados (sexualidade em ambiente privado, por exemplo) versus comportamentos não esperados (masturbação em sala de aula, por exemplo).

Para concluir, gostaria de salientar que a maneira como os adolescentes lidarão com as mudanças em seu corpo vai depender do suporte que receberá da família e dos profissionais que o atendem. Esse período (e seu sucesso ou insucesso) marcará a entrada para a vida adulta, ou seja, a maior parte da vida dessa pessoa! Precisamos nos esforçar mais para acertar nesse quesito. Precisamos pesquisar e aprender mais!

Referências Bibliográficas:

  • Ballan, M. S., & Freyer, M. B. (2017). Autism spectrum disorder, adolescence, and sexuality education: Suggested Interventions for mental health professionals.
  • Gunby, K., Carr, J. E., & LeBlanc, L. A. (2010). Teaching abduction-prevention skills to children with autism. Journal of Applied Behavior Analysis, 43, 107-112.
  • Mahoney, A., & Poling, A. (2011). Sexual Abuse Prevention for People with Severe Developmental Disabilities. Journal of Dev Phys Disabilities, 23:369–376, 23: 369-376.
  • Salter, J., & Croce, K. (2007). The Self & Match System – Systematic use of self-monitoring as a behavioral intervention. Printed in United States.