Motivação social & autismo

 

Motivação social é a chave para aprendizagem e crescimento típico

Por Lisa Jo Rudy

As pessoas com autismo pensam diferente das outras, e aceitação social não é necessariamente uma motivação primária para elas. Talvez, como resultado, as pessoas com autismo não prestem a devida atenção ao comportamento social de outros nem imitem o que outros fazem, dizem ou usem em situações particulares. São raramente motivados por recompensas sociais ou pela ameaça de perder oportunidades sociais.

Nada disto significa que pessoas com autismo não gostem de abordagens sociais (algumas gostam, algumas não), nem significa que pessoas com autismo nunca se sentem sozinhas. Mas significa que pessoas com autismo reagem de forma diferente a comportamentos motivadores e, como resultado, muitas vezes não possuem as habilidades e desejos que levam os seus pares a alcançar comportamentos socialmente aceites.

O que é motivação social?

A maioria dos bebés, crianças, adolescentes, e adultos são altamente motivados por aceitação social, inclusão e recompensas. Pequenos bebés giram as cabeças e sorriem quando outra pessoa tenta captar a sua atenção. Crianças trabalham arduamente para receber a atenção e elogios de pais e outros adultos. Adolescentes passam muito do seu tempo a imitar e a esforçar-se pela atenção dos seus pares – ou na esperança de receber elogios dos seus pais ou professores. Adultos são motivados pela aprovação de outros também: a maioria irá trabalhar arduamente pelo reconhecimento dos seus pares ou pela oportunidade de ser selecionado, incluído, ou avançar numa situação social.

Para alcançar a aceitação social, inclusão, ou promoção, a maioria das pessoas presta muita atenção ao que outros fazem, querem ou aprovam. Em todas as idades, imitamos os nossos pares e procuramos pistas em relação ao que nos permite ganhar prestígio social. Prémios por aceitação social estão em todo o lado, desde ser selecionados como “Rei e Rainha do Baile” até Empregado do Mês, eleições para cargos, ou ser aceite numa fraternidade ou num clube social.

O facto de muito das nossas vidas estar associado a um processo de alcançar a aceitação social, faz com que nós tenhamos o desejo de observar e imitar o comportamento social de outros. Além disso, assumimos que, por exemplo, “castigar” um adolescente é uma consequência com significado por fraco comportamento enquanto apoiar atividades sociais será uma recompensa significativa.

Motivação social é o condutor para a aprendizagem, metas, e escolhas na vida. Não nos esforçamos por aceitação social simplesmente porque sorrisos são mais agradáveis do que testas franzidas, mas porque queremos ativamente a experiência de ser bem-vindo e incluídos entre os nossos pares.

Motivação social e autismo

A teoria da motivação social do autismo atesta que crianças com autismo são intrinsecamente menos interessadas em interação social. Como resultado, prestam menos atenção a informação social. O resultado: desenvolvimento sociocognitivo comprometido, o que pode ser descrito como qualquer coisa relacionada com a nossa compreensão de outras pessoas e das suas ações.

Por exemplo, a pessoas com autismo muitas vezes falta:

  • Teoria da Mente: a habilidade de perceber que outras pessoas pensam diferente ou para adivinhar corretamente o que outros estão a pensar e a sentir.
  • Habilidade de imitar: a habilidade para observar e copiar comportamento de pares em diferentes situações sociais
  • Habilidade de comunicação: A habilidade para utilizar de forma apropriada linguagem verbal ou não verbal para comunicar o que querem, o que precisão, e ideias.
  • Habilidade de interagir: A habilidade de iniciar de forma significativa com pares da mesma idade em jogos apropriados à idade que requerem a colaboração ou partilha de pensamento criativo
  • Habilidade de se colocarem na posição de outra pessoa e imaginar como elas se sentem

Além destes desafios que, não surpreendentemente, fazem o dia-a-dia extremamente desafiante, pessoas com autismo não são motivadas para agir pela aprovação de outros.

Isto não significa que pessoas com autismo atuem mal de forma a obterem desaprovação – na verdade, isso é extremamente raro. Em vez disso, significa que muitas pessoas no espectro estão alheias ou despreocupadas com as expectativas de outros.

Portanto, por exemplo, uma criança com autismo pode ser perfeitamente capaz de atar os sapatos mas pode não ter particular interesse em faze-lo. O facto de “todas as outras crianças” apertarem os seus sapatos é irrelevante.

A falta de motivação social é particularmente significativa para crianças muito jovens que aprendem muito nos primeiros anos de vida através de jogos de imitação e repetição. Também pode ser desativado enquanto as crianças se tornam adolescentes e adultos. Muitas pessoas com autismo “atingem um muro” quando as suas habilidades de comunicação e motivações sociais não conseguem acompanhar as suas habilidades intelectuais.

Motivação

Motivação é a chave para qualquer tipo de treino ou educação. Ninguém se comportará ou agirá de forma prescrita a não ser que tenham uma razão para o fazer.

Estas motivações devem basear-se nas preferências de cada individuo. Como resultado, podem incluir atividades preferidas (por exemplo, saltar no trampolim, receber cócegas, personagens que gostem como o Mickey, Ruca, etc).

Por vezes é possível que um terapeuta estabeleça uma relação fortemente positiva com o aprendiz, e nesses casos, um abraço ou high five também pode ser uma motivação significativa.

Terapias ABA – Análise Comportamental Aplicada

Princípio da recompensa diferente do princípio da motivação

Nas terapias ABA muitos terapeutas utilizam o princípio da recompensa (dar algo em troca de uma determinada ação – guloseima, ver um vídeo ou jogar um jogo no tablet, deixar a criança saltar no trampolim, etc) o que pode ser confundido com o princípio da motivação. Usar a motivação implica pegar naquilo que a criança mais gosta para a ensinar determinadas competências e planear a atividade em torno dessa mesma motivação, enquanto a recompensa apenas se foca na troca por troca – fazes isto e recebes isto.

Existem prós e contras para este tipo de abordagem terapêutica:

Prós Contras
  • Terapeutas tentam ativamente compreender o que motiva o individuo
  • Crianças com autismo mais propensas a cumprir pedidos
  • Quando a recompensa desaparece a motivação diminui
  • Crianças com autismo podem se focar na recompensa e não na ação desejada

 

Do lado dos prós, os terapeutas estão ativamente a tentar compreender o que motiva o individuo com autismo antes de ensinar comportamentos desejados. Como resultado, crianças com autismo têm maior tendência a cumprir as “ordens”, ou pedidos para completar uma dada ação.

Do lado dos contras, enquanto um individuo pode aprender os comportamentos de forma a ganhar a merecida recompensa, uma vez que a recompensa desapareça a motivação diminui. Por outras palavras, enquanto uma criança pode aprender a sorrir e dizer olá de forma a ganhar uma guloseima, ela pode optar por não o fazer se a única recompensa for a aprovação do professor ou par que pode (ou não) sorrir de volta.

Outra potencial desvantagem é a realidade que crianças com autismo podem ficar completamente focadas na recompensa e não na ação desejada. Portanto o foco da criança não é observar ou compreender a ação de outros à sua volta, mas sim o prémio que ela recebe se repetir o comportamento desejado. O resultado é que a criança pode ser capaz de fazer algo mas não compreender o propósito ou o contexto da ação.

Mesmo quando o prémio “desaparece” à medida que o aprendiz começa a desempenhar um comportamento mecânico, o aluno não generaliza necessariamente o comportamento. Por exemplo, uma criança pode aprender a sorrir e a dizer bom dia ao seu professor todos os dias. No início, a criança é recompensada sempre com uma pequena doçura. Mais tarde, ela recebe um adesivo em vez da doçura. Finalmente, ela diz bom dia sem qualquer tipo de recompensa. Mas porque ela pode não reparar ou valorizar a resposta do professor em forma de sorriso, ela pode não ter um desejo ativo de trocar sorrisos.

Além disso, é provável que a criança sorria e diga olá apenas na configuração em que ela aprendeu o comportamento porque ela não está familiarizada com a ideia de “sorrir e dizer bom dia a todos os professores”. Portanto, ela pode utilizar o comportamento na sala onde o aprendeu mas não na sala de matemática, ou no jardim-de-infância mas não na escola primária.

Motivação social e implicações para pessoas com autismo

Sabendo quão importante a motivação social é para quase tudo o que nós fazemos na nossa vida, a falta de motivação social numa pessoa com autismo pode levar a alguns desafios. Este é o caso, mesmo que o individuo seja brilhante, capaz, criativo, compreensivo e disposto a interagir com outros.

Pessoas no espectro do autismo estão muitas vezes desatentas a expectativas sociais ou à sua importância. Como resultado, eles podem:

  • Vestir-se ou falar de forma inapropriada com base numa situação em que eles se encontram (Ex: vestir calções para o trabalho numa empresa)
  • Optar por não completar tarefas que eles achem desinteressantes ou não importantes (incluindo, por exemplo, fazer a barba ou finalizar um projeto escolar)
  • Não compreender comunicação social verbal ou não verbal e agir com base nesse mal-entendido
  • Comportar-se não intencionalmente de forma rude ou não pensada por falta de compreensão social ou desconhecimento de sugestões sutis faladas ou não
  • Encontrar-se socialmente isolados porque não atingiram ou não retribuíram convites sociais
  • Perder oportunidades que poderiam ter acontecido se tivessem aproveitado oportunidades que desconheciam ou às quais não responderam
  • Perder relações com pares como resultado de preservar tópicos de interesse pessoal que não interessavam a outros (e particularmente como resultado de preservar interesses inapropriados para a idades, como filmes infantis, videojogos)

Enquanto não é possível “ensinar” motivação social, é possível fornecer apoio, concelhos, e orientação tanto a crianças como a adultos com autismo pegando nas suas motivações e usá-las na aprendizagem de determinadas competências de forma significativa e com sentido para eles. Em muitos casos, desafios podem ser contornados e oportunidades aproveitadas.

 

Fonte adaptada: https://goo.gl/UwVbfg

Traduzido por: Bruno Mendes