O que sabemos sobre a sensibilidade aos ruídos no Autismo?

 

Donald ficava “completamente petrificado perante o aspirador”. Também Elaine, que não ousava passar perto do armário onde o aspirador ficava arrumado. Richard, Barbara e Virginia, por outro lado, ignoravam o som, a ponto de outras pessoas chegarem a questionar se não seriam surdos.

Estes foram os primeiros filhos do autismo, descritos num artigo de referência de Leo Kanner, datado de 1943, dando nome e definição a uma perturbação que, atualmente, afeta uma em cada 68 crianças norte-americanas.

Entre outros, a maioria das crianças que ele estudou partilhava uma relação atípica com o som – ignorando-o ou temendo-o. Hoje, ignorar ou ter uma reação exagerada aos próprios sentidos é sintoma de uma perturbação do espectro do autismo, de acordo com o manual do psiquiatra norte-americano, publicado em 2013. Estes sentidos incluem a visão, o tato, o olfato, o movimento e o paladar mas, para muitos indivíduos, a imagem estereotipada do autismo envolve o sentido da audição. É a imagem de uma criança a tapar os ouvidos com as mãos, bloqueando o ruído. De facto, isso era o que Elaine fazia quando ouvia o burburinho do aspirador. Atualmente, o seu diagnóstico passaria por uma hipersensibilidade ao ruído. Richard, Barbara e Virginia seriam descritos como hiposensíveis, porque eles não eram capazes de reconhecer muitos dos sons.

Passaram-se seis décadas desde que o Dr. Kanner descreveu este fenómeno, mas os cientistas ainda têm muitas questões acerca dele. Entre elas, a principal é: O que é que causa a sensibilidade ao som no autismo e que tratamentos podem funcionar? Como é que isto afeta a capacidade de um indivíduo de se envolver ativamente na vida quotidiana?

O que sabemos?

Estudos relatam que entre 30 a 90% das pessoas com autismo ignoram ou reagem exageradamente a imagens, sons, cheiros ou outras sensações comuns. Entre as crianças que participaram no Simons Simplex Collection, um projeto de pesquisa sobre o autismo, cerca de 68% demonstrou interesses sensoriais pouco comuns e 65% eram sensíveis ao ruído.

De um modo geral, os investigadores tiveram alguns problemas em ser bastante mais específicos. Afinal, não há um tipo de problema sensorial que seja “consistentemente associado ao autismo”.

Há uma década atrás, dois notáveis investigadores da área do autismo, Sally J. Rogers e Sally Ozonoff, reviram 75 estudos publicados desde 1960 sobre esta matéria. Neles, encontraram mais provas de que as crianças com autismo reagem passivamente aos seus sentidos, mas referiram não conseguir tirar conclusões firmes. Tal verificou-se porque os estudos que eles reviram faziam uso de diferentes métodos, testavam coisas diferentes e baseavam-se em diferentes padrões científicos ao longo das décadas. Na última década, outros estudos procuraram aperfeiçoar o conhecimento acerca daquilo a que Rogers e Ozonoff chamaram “desregulação sensorial”.

Como processamos as informações sensoriais?

Pense no seu cérebro e sistema nervoso como um comando, recebendo informações dos seus sentidos, decidindo o que é relevante e escolhendo como reagir. Exemplo: o seu chefe aproxima-se do seu cubículo para lhe dizer algo. Uma luz fluorescente cintila, um colega dá uma gargalhada no cubículo ao lado e o microondas apita na sala de convívio. Porém, o seu cérebro filtra essas imagens e sons para que você se possa concentrar no que o chefe lhe está a dizer. Também afasta o som de uma sirene lá fora, mas quando cheira e vê fumo, você e o seu chefe respondem a esse “estímulo sensorial” e saem do edifício.

Um indivíduo com autismo processa a informação vinda dos seus sentidos de forma diferente. Pode ser incapaz de filtrar sons e imagens irrelevantes tais como, no exemplo anterior, o microondas ou a luz a cintilar. Ou, então, pode ter uma extrema dificuldade de concentração perante certos sons, luzes ou texturas, sentindo-se desconfortável. Há quem suspeite de que os problemas sensoriais podem funcionar como gatilho para os outros comportamentos frequentemente encontrados no autismo, como hábitos alimentares extremamente exigentes ou o hábito de perambular.

Estudando o sistema auditivo

Investigadores tentaram medir e quantificar os sintomas sensoriais comuns ao autismo fazendo inquéritos aos pais, testes de condutibilidade da pele, exames auditivos e exames ao cérebro. Será que há algo de diferente na forma como as pessoas com autismo ouvem e processam o som?

Um grupo de investigadores britânicos colocou a questão: “os adolescentes com autismo são mais sensíveis ao tom, ao volume e à duração dos sons do que os outros adolescentes?”. Descobriram que a maioria dos adolescentes com autismo não difere dos adolescentes com desenvolvimento típico no que toca à capacidade para discriminar os sons em geral. Porém, fizeram descobertas interessantes quando dividiram os adolescentes com autismo em subgrupos, divisão essa baseada nas diferenças entre eles. Cerca de 20% dos adolescentes demonstraram uma excelente precisão do tom, que é a capacidade de distinguir um tom musical de outro. Ao mesmo tempo, um outro subgrupo teve dificuldade em determinar o volume de um tom. Esses adolescentes eram os que tinham mais problemas em lidar com os ruídos no quotidiano.

Um outro grupo de investigadores procurou apurar a forma como o sistema nervoso autónomo das crianças, que controla largamente as ações involuntárias, reage ao ruído. Para esta investigação, mediram a condutibilidade da pele – a resposta das glândulas sudoríparas na mão – em crianças com e sem autismo. Os cientistas verificaram que as crianças com autismo tinham reações autónomas mais fortes do que as crianças com desenvolvimento típico, na presença de um ruído – mas também na sua ausência. A resposta fisiológica mais forte no autismo pode desencadear respostas comportamentais ao som também elas mais fortes, concluíram.

Na Universidade da Califórnia Los Angeles, os cientistas usaram ainda outro teste para estudar os sentidos da audição e tato no autismo. Examinaram o cérebro de crianças expostas a duas fontes de irritação relativamente leves: sons barulhentos do trânsito e tecido de lã áspero. Numa ressonância magnética funcional, os jovens com autismo demonstraram uma maior atividade em certas áreas cerebrais comparativamente com crianças com desenvolvimento típico, como referiram os cientistas. Essas regiões incluem a amígdala, que está envolvida nos comportamentos sociais e emocionais, e os córtices, que processam a informação sensorial.

Alguns estudos sugerem que o sistema nervoso de uma criança com autismo pode reagir de maneira diferente ao som. Quererá isso dizer que a sua audição é, em alguma medida, melhor ou pior do que qualquer um dos seus colegas de turma?

Consegues ouvir-me agora?

Um grupo de pesquisa administrou uma bateria de testes para descobrir. Não detetaram nenhuma diferença entre a audição das crianças com ou sem autismo – em testes que não requeriam a resposta comportamental das crianças.

Porém, as coisas complicaram-se quando levaram a cabo um teste que requeria uma resposta comportamental por parte das crianças, ao ouvirem um som em particular. Nesses testes, 41% das crianças com autismo agiram como se não tivessem ouvido normalmente, pelo menos, uma vez. Repetiram os testes e obtiveram resultados diferentes em algumas das mesmas crianças. Esta falha em responder normalmente e de forma consistente ao som pode ser causada por um problema de atenção e não ter que ver necessariamente com a audição ou processamento sensorial, tal como teorizaram estes e outros cientistas.

Esse grupo de pesquisa alertou os pais e professores de que as crianças com autismo podem parecer ter uma audição anormal em testes que exijam uma resposta comportamental, ainda que não tenham qualquer problema auditivo. Também referiram que as suas descobertas poderiam pôr em causa algumas das suposições por detrás de um “tratamento altamente controverso, treino de integração auditiva” que alega tratar as “dificuldades auditivas” das crianças com autismo. Isto porque as crianças com autismo podem executar testes comportamentais de audição de forma inconclusiva, que podem ser administrados antes e depois do “treino de integração auditiva”.

O National Autism Center classificou o “treino de integração auditiva”, bem como a terapia de integração sensorial (outro tratamento comum), como “intervenções não estabelecidas”, num relatório de 2015. Isso significa que há pouca ou nenhuma evidência científica confiável da sua eficácia para crianças com autismo.

O American Speech-Hearing-Language Association tomou uma posição semelhante sobre o “treino de integração auditiva”. Referiu que este treino não atende a padrões científicos de eficácia que possam justificar o seu uso por audiologistas.

Mas onde é que isto deixa os indivíduos com autismo que preferem tratamentos com sólidas bases científicas?

Tratamento para crianças com autismo

Os terapeutas ocupacionais têm estado na vanguarda do processamento sensorial desde que um deles, A. Jean Ayres, começou a descrever e a teorizar sobre o assunto, há cerca de 50 anos atrás. No autismo, a linguagem e os atrasos sociais de uma criança podem dificultar a identificação e a comunicação de quais os sons, imagens e sensações que a incomodam. Por vezes, pode ser mesmo necessário um trabalho de detetive por parte do terapeuta, a fim de determinar a causa do comportamento sensorial de uma criança.

Um terapeuta tenta ajudar a criança a organizar a informação sensorial, de maneira a que ela seja capaz de responder apropriadamente e de tomar parte das atividades do dia-a-dia. Em algumas clínicas e escolas, os terapeutas ocupacionais trabalham com fonoaudiologistas e analistas comportamentais para elaborar uma abordagem de tratamento multidisciplinar para a criança com autismo. Também dão formação aos pais acerca do que fazer em casa para ajudar os seus filhos a participarem ativamente em atividades lúdicas, familiares, recreativas e outras.

São e salvo: um novo caminho para a pesquisa sobre o autismo

A National Autism Association (NAA) juntou-se à Interactive Autism Network (IAN), a fim de elaborar pesquisas na área da sensibilidade auditiva no autismo e na forma como isso pode motivar incidentes de perambulação ou outras situações perigosas. Alguns pais relataram que os seus filhos vagueiam ou fogem como resposta a certos sons, refere a presidente da NAA, Wendy Fournier. “Nós sentimos fortemente que as sensibilidades auditivas têm um papel em questões de segurança”.

A IAN analisou, para o estudo, os pais de 814 crianças com autismo e revelou os resultados preliminares na Primavera de 2016. Ser híper ou hiposensível ao ruído foi a causa para que entre 43 a 52% das crianças tivessem estado numa situação insegura, de acordo com os seus pais. A sensibilidade ao ruído levou a que algumas crianças se magoassem a si mesmas ou a outros, ou então levou a ferimentos acidentais. Mais de 40% das crianças sensíveis ao ruído tentaram fugir dos sons que os incomodavam, e um quarto tentou esconder-se. Da mesma forma, um estudo anterior do IAN descobriu que algumas crianças fogem para escapar de experiências sensoriais desconfortáveis.

Fournier disse ter esperança em que mais pesquisa leve a melhores intervenções, a algo além do usar fones para bloquear o ruído, como muitos pessoas com autismo fazem. O estudo de 2016 relatava que cerca de metade dos pais estavam satisfeitos com os fones de ouvido, fones de ouvido com música ou protetores de ouvidos. Porém, a maioria não estava tão satisfeita com os tampões para os ouvidos. “Esperamos que, com a informação recolhida, seja possível desenvolver aparelhos que ajudem a aliviar a sensibilidade sonora e a dor que dela advém”, disse a presidente.

O estudo do IAN explorou estratégias usadas pelos pais de crianças com sensibilidade ao ruído. A maioria tentava evitar a exposição dos seus filhos aos ruídos que os perturbavam e fazia pausas silenciosas com eles. Ainda assim, cerca de um terço dos pais referiu que ao limitar a capacidade dos seus filhos em participar em atividades familiares, comunitárias ou escolares, o autismo levou ao isolamento social.

Obrigado às famílias que participaram na pesquisa do IAN sobre sensibilidade auditiva e segurança infantil.

 

Fonte: https://iancommunity.org/ssc/noise-sensitivity-autism

Traduzido por: André Gomes