Como dizer não à sua criança e como responder às reações indesejadas?

Colocar limites ou dizer não às nossas crianças muitas vezes leva à frustração, o que leva consequentemente a respostas emocionais que se traduzem em comportamentos mais indesejados e desafiantes como birras, morder, puxar cabelos, cuspir, entre outros.

Que estratégias podemos usar para facilitar e/ou gerir quando estas situações acontecem?

Antes de mais, é importante analisarmos se todos os “nãos” que utilizamos para repreender as nossas crianças são efetivamente todos necessários. Muitas vezes dizemos não de forma automática mas será sempre necessário usar essa palavra? Claro que alguns “nãos” são fundamentais e não podem ser evitados, mas também existem muitos que podemos poupar.

Por exemplo, imaginem que a vossa criança quer calçar uns sapatos que já não lhe serve porque são muito pequenos. Nesta situação podemos evitar o não e deixar a criança explorar por si própria que se calhar aquele calçado não será o mais adequado para ela usar. Agora imaginem que a vossa criança está convosco na rua e começa a correr. Aí o nosso não deve entrar em acção sem dar margem para dúvidas, pois falamos de uma situação de perigo que poderá correr mal para a criança.

Para termos uma ideia mais claro dos nãos que podemos poupar e dos que podemos dizer, podemos começar por fazer uma lista com as situações em que usualmente os usamos e ver quais podemos deixar e dar a oportunidade à criança de explorar a situação por si. A ideia é não sobrecarregar demasiado a criança e dar-lhe alguma liberdade de auto-aprendizagem.

Depois de feita essa lista, que estratégias posso continuar a aplicar?

Um aspecto bastante relevante, que pode fazer toda a diferença, que por vezes não nos lembramos de fazer, é sempre que delineamos um limite à criança não oferecermos uma alternativa.

Por exemplo, no caso da criança querer correr na rua. Podemos deixar bem claro que não queremos que o faça usando a palavra “não” de forma clara e consistente mas podemos fazê-lo de uma forma diferente. Podemos explicar tranquilamente à criança o porquê de não o poder fazer mas que se quiser poderá ir até ao parque, jardim, casa e correr aí pois sabemos que é algo que gosta de fazer. A ideia é conseguir oferecer uma alternativa que corresponda à expectativa da criança e mostrar-lhe que existe sempre alternativas.

Ao termos esta abordagem estamos também a ajudar a criança a criar estratégias para coisas que não pode fazer e a procurar alternativas de outras coisas que possa e que lhe transmitam a mesma sensação que procura. Ao criarmos este processo e ao ajudar a criança a desenvolver novas estratégias iremos ajudá-la a não ficar presa e estagnada no sentimento de frustração que geralmente ocorre a seguir a situações destas, o que por sua vez despoleta na maior parte das vezes os tais comportamentos indesejados. Ou seja, a probabilidade de a criança usar a birra, a agressividade ou outro comportamento desafiante para conseguir o sim, diminui consideravelmente.

Mas e se, mesmo após a criança ter recebido a alternativa tem na mesma um comportamento indesejado?

Também pode acontecer a criança não aceitar a alternativa e ter na mesma um comportamento desajustado e nesse caso, temos duas hipóteses:

1. Explicamos de forma tranquila à criança que entendemos que esteja chateada e aborrecida com a situação e ignoramos o comportamento. Caso a criança esteja num ambiente seguro, podemos sair de ao pé dela, tendo em atenção que não haja nada no espaço com que se possa magoar ou que a coloque em perigo. Muitas crianças quando ignoradas rapidamente largam o comportamento e acalmam-se automaticamente por perceber que não irá despertar qualquer reação em si nem irá fazer com que consiga o que quer.

2. Caso a criança, após sair do mesmo espaço que ela não se acalme e entre em crise, então aí deve ir para a segunda hipótese. Nesta situação a criança irá precisar da sua ajuda para se conseguir auto regular a nível emocional. Fale claramente e tranquilamente com ela. Explique-lhe que percebe que esteja chateada, aborrecida, até com raiva. Que no lugar dela sentiria o mesmo e que quando se sente assim gosta sempre de um abraço, podendo oferecer-lhe esse reconforto caso ela aceite. Pode ainda começar a cantarolar-lhe uma música mais calma, soprar-lhe para o rosto, transmitindo que está tudo bem… Fique com a sua criança até acalmar, tente-lhe dar o que ela necessita para relaxar mas nunca, em momento algum, volte atrás com a sua decisão de dizer não. Caso a criança avance para um comportamento de auto agressão como por exemplo bater com a cabeça na parede, tente afastá-la da parede ou coloque uma almofada no meio para não se magoar. Mantenha a consistência da sua decisão e em caso algum ceda.

O que acontece se ceder após a sua criança ter um comportamento indesejado?

Todo o comportamento é uma forma de comunicação. Ora, os comportamentos indesejados não fogem à regra. A criança está a lidar e a comunicar a sua frustração da forma que pode e consegue. No espetro do autismo, estas crianças têm uma dificuldade acrescida em comunicar, daí muitas vezes usarem este tipo de estratégias pois são as que geralmente resultam e são mais eficazes.

Se ceder após um comportamento indesejado da sua criança, o que lhe irá estar a ensinar inconscientemente, é que isto tipo de comportamento resulta para ela conseguir o que quer. Sempre que uma situação de “não” acontecer, a criança irá pensar no que fez da última vez para conseguir o que queria, vai se lembrar que este comportamento resultou e irá voltar a repeti-lo. A chave aqui é a consistência. Sabemos que custa ver o nosso filho a chorar ou até a se auto magoar, mas acredite que é o melhor para a sua criança. Está ajudá-la a lidar com a sua frustração e está a dar-lhe ferramentas para esticar a sua flexibilidade e aceitar outras alternativas ao que não consegue ou pode ter no momento. É um processo que a longo prazo trará benefícios para ambos.

Concluindo, sempre que disserem não, ofereçam alternativa. Se a criança aceitar ótimo! Se não aceitar e tiver um comportamento indesejado ótimo também! Vão iniciar um processo de aprendizagem com ela que a irá ajudar. Mantenham-se firmes, não cedem e quando a situação estiver muito difícil de gerir lembrem-se que estão a ajudar os vossos filhos a crescer e que por vezes esse processo implica dizeres-lhe que não, mas sempre com muito amor e carinho.