Iniciar o desfralde com a sua criança com autismo: passo-a-passo!

Antes de começar a entrar mais em detalhe sobre técnicas e estratégias para ajudar a sua criança a usar a sanita, coloque esta questão a si mesmo: Fica assustado com a ideia de ensinar a sua criança a usar a casa de banho? Ou sente-se bastante entusiasmado e motivado para começar esta nova aventura com ela? 🙂
A resposta a esta questão é fundamental antes de se iniciar o processo. A nossa atitude tem um impacto bem maior do que aquele que achamos e é importante que ao longo desta nova aventura nos sintamos relaxados e confortáveis com o caminho e eventuais percalços que possam acontecer.
As idas à casa de banho é um grande passo para a nossas crianças, e elas podem querer controlar como e quando o fazem. Se nós próprios nos sentimos tensos e desconfortáveis, estaremos inconscientemente a transmitir essa insegurança e incerteza e as nossas crianças irão perceber essa atitude e podem relacioná-la com toda a experiência da ida à casa de banho.
Por isso, primeiro passo. Perceba como se sente em relação a esta questão. Sente-se pouco à vontade com a ideia de a sua criança ainda não usar a casa de banho e quer que comece a usar rapidamente? Fica receoso quando pensa que poderá ter de limpar os descuidos de xixi e cocó que poderão acontecer pelo caminho? Ou sente-se confiante e relaxado de iniciar esta aventura ao ritmo da sua criança?
Se sente mais o desconforto, não há problema algum. Neste caso, recomendamos que não inicie já esta etapa com a sua criança até que se sinta 100% à vontade. Dê tempo a si próprio ou o espaço necessário até se sentir verdadeiramente preparado.
Se sente bem e confortável então está pronto para começar!
1. Avalie se a sua criança está pronta.
O primeiro passo é analisar se a sua criança está pronta para usar a sanita. Para isso recomendamos a leitura do seguinte artigo: Iniciar o desfralde com a sua criança com autismo: passo-a-passo!
2. Comece por mostrar ao seu filho, que as idas à casa de banho nada têm de mal, bem como, o que acontece lá.
Fale abertamente sobre o assunto – que é algo natural, saudável, divertido e que faz parte de sermos seres humanos. Já não é um segredo, nem algo que não se fala – vamos falar-lhes abertamente sobre isso e de forma positiva.
Da próxima vez que trocar a fralda à sua criança e ela fizer cocó, mostre-lhe de forma sorridente e partilhe com ela como ela conseguiu, que o corpo dela é incrível e está a fazer exatamente o que é suposto fazer. De seguida leve à fralda para a casa de banho para a deitar fora para ela saber exatamente para onde é suposto ir.
Algo que também pode começar a fazer nesta fase inicial, é sempre que for à casa de banho, anuncie de forma orgulhosa e entusiástica que está a sentir algo na sua barriga, na parte de baixo do abdominal, uma sensação de empurrar para baixo e que está na hora de ir usar a sanita. Partilhe em voz alta com a sua criança e até pode convidá-la a ir consigo para lhe mostrar o que acontece quando se vai à casa de banho. Pais mostrem aos vossos filhos e mães mostrem às vossas filhas. Se as vossas crianças vierem convosco, façam com que seja muito divertido. Talvez elas possam puxar o autoclismo ou acenar para dizer adeus enquanto desaparece sanita abaixo. Pode parecer estranho, mas as nossas crianças precisam de ver o cocó na casa de banho para reconhecer que o cocó delas também deve estar lá. O mesmo se passa com o xixi – se puder levar a sua criança consigo à casa de banho, ela poderá ouvir o som do xixi e pode ir conversando com ela sobre o que está a acontecer de forma animada – “Yahoouuu estou a fazer xixi na sanita. Sinto-me muito melhor agora que estou a fazer xixi.”
Caso outro membro da família use a casa de banho, felicite-o pela sua experiência quando sair e dê-lhe por exemplo mais cinco. Vamos mostrar às nossas crianças que as idas à casa de banho não têm nada de assustador, antes pelo contrário, parece ser bastante divertido!
Algumas das nossas crianças são aprendizes visuais e precisam de ver as coisas para realmente as entenderem. Outras crianças precisam de tempo para processar e talvez precisem de ouvir um conceito ou ideias várias vezes. Outras precisam da exemplificação da nossa parte.
Se por acaso a sua criança não quiser ir consigo, não tem mal nenhum. Partilhe a sua experiência “Acabei de fazer cóco e sinto-me muito melhor e bem mais leve. Limpei-me e agora sinto-me bem fresco e limpo.”

3. Outro factor importante neste processo é a criança ter consciência e saber quando ter de ir usar a sanita. Uma coisa que é vital para elas entenderem, de maneira a terem sucesso, é elas saberem como o próprio corpo se sente e funciona. Nós sabemos quando temos xixi e sabemos quando temos cocó. Isto acontece porque os nossos corpos nos dão mensagens diferentes.

Queremos explicar isso para as nossas crianças para os ajudar a perceber os sinais que recebem. Explique verbalmente o que está a sentir ao detalhe em cada uma das situações. Para nós pode ser óbvio, mas não quer dizer que o seja para as nossas crianças. Este passo é muito importante para se tornarem mais consciente dos sinais que o corpo lhes dá e saberem que está na hora de usar a sanita.

4. Torne a casa de banho um lugar divertido para a sua criança. 

Pense em formas de como tornar a casa de banho mais convidativa e apelativa para a sua criança. Recorra as suas principais motivações, talvez possa decorar a sanita com aquilo que mais gosta. Se gosta de carros cole carros à volta da sanita, se gosta de números crie um caminho com números até à casa de banho,…

Tenha em conta se a casa de banho está adaptada em termos de estímulos: observe a iluminação, o cheiro dos sabonetes ou ambientares, o barulho do autoclismo…

Passe mais tempo na casa de banho durante o dia com a sua criança. Faça por exemplo a troca da fralda no espaço da casa de banho. Se está a brincar com ela e ela está por exemplo nas suas cavalitas, faça um passeio até à casa de banho. Se a sua criança adora o Mickey, faça com que um dos seus peluches do Mickey se sente na sanita e finja descarregar o cocó ao usar uma voz engraçada. A ideia aqui é ser brincalhão, relaxado e não forçar, mas convidar e motivar.

5. Agora que está confortável com esta aventura e já fez os primeiros passos de mostrar à sua criança o que acontece na casa de banho e a ajudá-la a reconhecer os sinais está na hora…. É agora! vamos retirar a fralda!

A melhor forma da sua criança ter consciência da sua própria vontade de fazer as usas necessidades é ela começar a usar cuecas. Compre cuecas divertidas e engraçadas para a sua criança (com as suas personagens preferidas por exemplo). Pode sempre comprar cuecas brancas e decorá-las com marcadores próprios com as motivações específicas da sua criança. Se a criança gosta de letras e números pode também coser esses símbolos nas cuecas. Puxe pela criatividade e pense naquilo que a sua criança gostaria. Tente diferentes tipos, como cuecas, boxers, com fibras naturais se a sua criança for mais sensível, etc.  Se quiser, numa fase inicial para não ser tão radical, pode começar por vestir as cuecas por cima da fralda até fazer totalmente a transição.

O facto de a sua criança largar a fralda, é uma excelente oportunidade de a sua criança experienciar a verdadeira sensação de não ter algo que impede o xixi quando ele tem vontade de sair. Será mais fácil para eles ganhar consciência dos sinais dos seus próprios corpos.

6. Prepare-se para alguns acidentes, porque eles vão acontecer! 🙂

Se tem algo em casa que tem medo que se estrague, como tapetes ou sofás de pele, pode cobri-los com um lençol velho ou com outras formas de proteção. Tenha sempre à mão bastante roupa como cuecas, toalhas velhas, toalhetes, anti-séptico para as mãos, etc.

Agora que sabe que poderão fazer xixi e enquanto procura pelos sinais, comece por incentivar a sua criança a ir até à sanita várias vezes ao longo do dia. Mesmo que não faça naquele momento as suas necessidades, deixe-a a estar lá sentada durante o tempo. Acompanhe o processo com muitas explicações – “Já passaram algumas horas desde a última vez que fizeste xixi e parece que talvez precises de ir outra vez. Estou tão entusiasmado com isto vamos outra vez!”.

Se a criança não fizer na sanita mas fizer depois no chão, tente não reprovar a criança, ela está em fase de aprendizagem, ainda está assimilar toda esta nova informação e queremos motivá-la a continuar o processo e a deixa-la segura e confiante. Se a criança fizer xixi no chão pode explicar “fizeste xixi, da próxima vez podes fazer na sanita sim?”. Caso tenham um acidente não retirem de imediato as cuecas molhadas, deixem por alguns minutos pois pode ser importante elas sentirem a humidade contra o corpo, quando anteriormente a fralda protegia isso.

Convide regularmente a sua criança durante o dia a ir à sanita, mesmo que não veja sinais, para que comece a tornar-se uma rotina. Faça o convite de forma divertida hora a hora por exemplo.

7. Última nota mas não menos importante…

O Autismo é uma perturbação da comunicação e da interação, por isso quando trabalhamos com as nossas crianças é importante colocar em primeiro lugar a nossa relação com elas, tornando-nos amigáveis, acessíveis e amorosos.

Por isso, quando iniciamos a aventura do desfralde com as nossas crianças no espetro, esteja ela na fase que estiver, é importante dar-lhe total controlo da sanita. Nesta aventura com a sua criança é importante que esta seja uma aventura relaxada e divertida, livre de pressões. Se a criança se distanciar, fugir ou disser de forma muito convicta que não quer ir à casa de banho, vamos respeitar o seu tempo e vamos celebrar o facto de nos o estar a comunicar. Vamos colocar o convite em pausa neste momento, voltando a ele mais tarde, sem pressionar demasiado. O facto de responder de imediato à necessidade de controlo da criança, respeitando o facto de ela naquele momento não querer, irá fazer com que perceba que está la para ela e respeita o seu tempo e vontade. Estará a criar uma relação de confiança com ela.

Caso a sua criança aceite começar este processo de sentar-se na sanita, recomendamos que diminuia ao máximo a manipulação física e só mova o corpo dela se a estiver a ajudar ou a fazer algo que ela própria lhe pediu , como por exemplo segurar-lhe a mão para a ajudar a sentar-se na sanita ou até avisá-la antes de o fazer que a vai ajudar (por exemplo: agora vou pegar-te ao colo para te ajudar a levantar e a sentar e atenção, 3 2 1…. Aqui vou eeeeeu). Após a comunicação e até levar mesmo a ação, faça uma pequena pausa para dar tempo à criança de assimilar o que lhe está a comunicar ou até lhe dar a oportunidade de recusar a sua ajuda caso assim ela o queira. Queremos dar-lhes o máximo de sensação de controlo, são eles que lideram esse processo e nós estamos lá apenas para apoiar.

No autismo, quanto mais controlo damos, mais flexíveis se tornam as nossas crianças, pois nós próprios estamos a ser um exemplo claro de flexibilidade e queremos inspirá-las a fazer igual. Lembrem-se… que mais importante do que o que dizemos, é o que fazemos 🙂