Como motivar a minha criança a variar na alimentação?

Desafios na alimentação é algo muito comum nas perturbações do espetro do autismo. Mas a boa notícia, é que é uma área que pode ser trabalhada!

Antes de começar a ler este guião que lhe explica passo-a-passo o que poderá fazer, considere antes estas estratégias a evitar sempre que tentar introduzir um novo alimento na alimentação do seu filho. Se já aplicou algumas vez uma destas estratégias, não se culpe, achava que estava a fazer o melhor. Ainda vai a tempo de mudar de estratégia e recomeçar toda uma nova aventura com o seu filho!

Estratégias a Evitar

1- Obrigar a sua criança a comer uma nova comida pode piorar as coisas e o seu filho poderá recusar-se a comer. Ambos ficaram frustrados e com uma má experiência nesta área da alimentação e o que queremos proporcionar a si e ao seu filho é precisamente o contrário.

2. Fazer uma refeição separada para o seu filho pode igualmente ser um grande erro. Vai ensiná-lo que vai ter uma refeição especial para ele mesmo se continuar a ser exigente. Ignorar os hábitos alimentares exigentes do seu filho não funciona e é provável que ele continue a ser exigente.

3. Castigá-lo – por exemplo, tirando-lhe algo de que gosta – geralmente não funciona. É melhor recompensar o comportamento alimentar que deseja ver – por exemplo uma celebração ou um elogio.

Agora que já tem uma ideia do que evitar, vamos então ao que pode fazer para melhorar os desafios alimentares do seu filho.

Faça um registo da rotina alimentar do seu filho

Comece a tomar nota daquilo que come e quando come. Por vezes, um diário alimentar pode ser reconfortante e ajudar imenso – pode, de facto, ver que a pessoa come uma variedade maior de alimentos do que pensava inicialmente e pode perceber um padrão alimentar, sendo mais fácil desenhar depois um plano de ação.

Alguns exemplos do que incluir no seu registo diário:

A que hora do dia comeu?
O que comeu?
Onde comeu?
Quais as quantidades que comeu? Quais as texturas/cheiros dos alimentos que comeu?
Quem estava presente?
Como é que as pessoas que estavam à volta responderam à pessoa que estava a comer? Elogiaram, não tiveram reação, repreenderam?
Houve algum fator ambiental, como por exemplo um rádio a tocar no fundo? Como esteve a sua criança durante o dia (tranquilo, mais agitado, …)?

Responder a este tipo de questões pode revelar algumas causas das dificuldades alimentares. Tente descobrir se é a quantidade, o tipo ou a variedade de alimentos consumidos que é a questão central, e, depois, que problemas subjacentes, ou problemas sensoriais, podem estar envolvidos.

Consulte um nutricionista para perceber se o seu filho tem alguma intolerância alimentar ou peça uma avaliação gastrointestinal

Enquanto espera por uma avaliação, comece a escrever um diário para acompanhar a experiências da sua criança. Quando é que os sintomas gastrointestinais parecem começar? Depois das refeições? Entre as refeições? De noite? Que alimentos ingere que provocam de seguida os sintomas?

Algumas crianças com autismo parecem ter reações negativas a produtos de leite (associado a uma proteína chamada caseína) e/ou produtos de trigo. Essas reações podem não ser alergias, mas podem levar a sintomas verdadeiros. Se realmente acreditar que a sua criança está a reagir negativamente ao leite ou ao glúten, pode considerar começar uma dieta sem glúten e sem caseína. É muito importante, no entanto, assegurar-se de que a sua criança está a receber a nutrição suficiente. Por isso, é boa ideia consultar o seu pediatra e nutricionista.

Acredite que é possível

É muito comum assumirmos o que os nossos filhos podem ou não podem fazer. Só porque eles ainda não fizeram algo, não significa que não possam vir a fazê-lo. Esta maneira de pensar fecha as possibilidades e oportunidades de ajudarmos os nossos filhos. De facto, eles podem mudar e mudarão. O primeiro passo para encorajar o seu filho a comer novas coisas é realmente acreditar que ele é capaz de o fazer. Ele acreditará naquilo que acreditar e vai receber as mensagens que lhe der. Portanto, antes de mais, decida que é possível.

Prepare o ambiente

É de conhecimento geral que as pessoas dentro do espetro do autismo têm um processamento sensorial diferente da norma e por vezes o ambiente pode influenciar, e muito, o comportamento. O seu filho pode estar num contexto muito perturbador e barulhento, a cadeira onde se senta pode ser demasiado dura ou desconfortável. Por outro lado, outros estímulos podem ser reconfortantes e relaxantes como uma música de fundo a tocar ou algum som em específico que seja para o seu filho tranquilizador. Tente analisar se algum factor ambiental pode estar a perturbar ou ajudar as horas das refeições.

Seja um exemplo

Quando não gostamos de determinados alimentos e o expressamos sobre diversas formas como verbais ou expressões faciais, as nossas crianças acabam por sentir isso e ficar ainda mais reticentes em experimentar novas comidas. Por isso, mostre à sua criança, de forma entusiasta e motivada como comer aquele novo alimento que está a propor é efetivamente um momento de prazer. Inspire-o através do seu exemplo a ele também experimentar. Se você próprio não gostar de novas comidas ou não estiver disposto a demonstrar alegria perante novas comidas, então como pode esperar que o seu filho as queira comer?

Se mostrar ao seu filho o quanto você ou um irmão desfrutam de um determinado alimento, ao longo do tempo ele pode estar disposto a dar-lhe uma oportunidade também.

Elogie o seu filho quando tentar um novo alimento – por exemplo, “é ótimo que tenhas experimentado essas cenouras”.

Observe as texturas e/ou cheiros dos alimentos que o seu filho aceita com maior facilidade

A sua criança não quer comer brócolos, maçãs, ou não toca em compota, molho de maçã, sumo de laranja ou sopa. Em ambos os casos, há um padrão óbvio de evitação: no primeiro caso, a criança está a rejeitar comidas crocantes. No segundo caso, a criança não tolera comidas macias ou pegajosas.

Pessoas com autismo podem ter defensivas sensoriais, o que significa que ficam facilmente perturbadas (e por isso evitam) certas experiências sensoriais. Eles podem detestar luzes claras ou barulhos altos. Também podem evitar certos cheiros fortes e certas experiências táteis. Determinadas comidas têm cheiros e sabores fortes; outras têm texturas específicas, que podem ser apelativas ou difíceis de tolerar para algumas crianças.

Uma vez detetado um padrão (nada crocante, por exemplo), deixe de servir num primeiro momento comida crocante. Cozinhe os brócolos até que fiquem moles. Sirva papas de aveia em vez de bolachas de arroz. Existem sempre alternativas nutricionais perfeitamente aceitáveis de comida de todas as texturas, cheiros ou sabores.

Se está determinado que a sua criança TEM de comer certo tipo de comida que não consegue facilmente tolerar, considere “esconde-las” noutras comidas. Muitos pais colocam vegetais em queques deliciosos ou no pão, por exemplo.

Tente modificar a comida para melhorar a experiência sensorial, por exemplo, fazer um puré e introduza um novo alimento ou novas texturas em pequenos passos, para uma dessensibilização gradual.

Mude a apresentação das comidas novas que quer introduzir

Utilize as motivações do seu filho para apresentar os novos alimentos que quer introduzir. Por exemplo desenhe caras, bolas, carros com os alimentos no prato – mude a apresentação da comida.

A atenção aos detalhes e a dificuldade com a mudança são características das pessoas com autismo. A forma como a comida é apresentada ou posicionada no prato ou a embalagem do alimento podem ditar se este é comido ou não.

Dê total controlo à sua criança

Encontre comidas semelhantes às suas preferidas. Ofereça opções. Para algumas crianças com ou sem autismo, a comida é uma das poucas áreas em que sentem que exercem controlo. Em vez de entrar em jogos de poder, ofereça ao seu filho várias opções de comida e deixe-o escolher aquela que preferir.

Experimente alimentos com texturas que o seu filho gosta. Por exemplo, se o seu filho não gosta de alimentos suaves e come apenas alimentos crocantes, ofereça legumes crus, como cenouras, em vez de vegetais cozidos.

Dar a escolher entre dois alimentos pode dar ao seu filho uma sensação de controlo. Isto pode ser útil para as crianças que acham a mudança difícil.

Dê liberdade à sua criança para explorar primeiro a comida nova que a está a convidar a provar. Deixe ela olhar para ela, depois tocá-la, depois convidá-la a colocar a comida no prato, depois cheirá-la, lambê-la, colocá-la na boca, mordê-la, mastigá-la e engoli-la. Tente não reagir negativamente à comida que é cuspida. Este processo está a ajudá-los a sentirem-se confortáveis com os diferentes alimentos que estão dentro da boca.

Introduza esta educação alimentar em brincadeiras que o seu filho goste

Quando o seu filho estiver envolvido consigo numa atividade que goste aproveite também essa oportunidade para trabalhar essa questão da alimentação. Por exemplo, imagine que está a fazer um jogo de cócegas em que é o monstro das cócegas que corre atrás dele para depois o encher de cócegas. Inicie a brincadeira com a criança e quando a sentir completamente envolvida anuncie que está a ficar sem energias, que se está a sentir cansado e vai ter de fazer uma pequena pausa para comer algo para repor energia. Continue a envolver a criança na brincadeira! Tenha perto um prato com um alimento novo que está a tentar introduzir cortadinho em pedaços pequenos e quando anunciar que vai comer para ganhar energias pegue no prato de forma entusiasmada e diga algo do género “hummm, que bem que isto cheira e que bom aspecto tem! Vou comer para ver se ganho forças para continuar a fazer-te muitaaaaas cócegas!”. Saboreie com entusiasmo, partilhe o bom que é o que está a comer, aproveite o momento para ser o exemplo que quer que o seu filha seja. E retome a brincadeira com ainda mais animação! Numa fase inicial sirva apenas de exemplo e vá repetindo o processo várias vezes. Deixe o prato à vista e alcance da criança e se vir que ele tem curiosidade (por exemplo se vir que está a olhar para a comida) convide-o a ver de mais perto, a tocar, cheirar e quem sabe provar. Passo-a-passo sem pressão, deixe o seu filho ir tendo contacto com o alimento que quer que ele comece a comer. Todos os momentos são oportunidades de aprendizagem e os melhores e mais efetivos é quando a criança está livre de pressões e se está a divertir. As probabilidade de aderir aumentarão o dobro!

Divirta-se!

Divirta-se, concentre-se em ter uma experiência descontraída e de brincadeira em torno de novas comidas. Tenha muita comida disponível e ao alcance da criança. Imagine que um bróculo é um brinco e que duas cenouras são um par de binóculos. Quanto mais se divertir, mais se divertirá o seu filho.

Estas etapas podem demorar algum tempo a serem concluídas mas não perca a consistência e perseverança. Tente encarar o objetivo como sendo o aprender e o estar confortável com diferentes alimentos, e não os fazer comer todos os diferentes alimentos apresentados. Boas aventuras!