Como ajudar a sua criança a tentar e a tentar muitas vezes?

O processo de aprendizagem é um processo complexo. Para aprender é preciso em primeiro lugar “errar”. Aprender uma nova competência ou algo de novo, requer várias tentativas, vários erros, até conseguirmos dominar alguma coisa.

No caso do autismo, faltam algumas competências que gostaríamos imenso que eles aprendessem e a nossa vontade de os ajudar a ganhar essas competências é muito grande! E a única forma de isso acontecer, é motivar as nossas crianças a tentar, e a tentar várias vezes. Se a sua criança não estiver disposta a tentar, será muito difícil para ela ultrapassar os seus desafios e é aqui que o nosso papel pode ser fundamental.

Existem algumas razões que explicam a dificuldade das nossas crianças no espetro do autismo terem dificuldade ou terem maior relutância a fazer várias tentativas para coisas que têm dificuldade. E as duas principais razões estão relacionadas com a área da flexibilidade e com o tempo de atenção conjunta – ambas áreas onde as nossas criança têm vários desafios.

Que papel fundamental podemos ter então para motivar as nossas crianças a tentar e a tentarem várias vezes a fazer coisas que têm dificuldade, com a finalidade de ultrapassarem os seus desafios e ao mesmo tempo conseguirem gerir a sua frustração de não conseguir à primeira?

A maior parte de nós deseja ter sucesso nas coisas que faz. Quando não estamos a ser bem sucedidos em algo, temos tendência para desistir ou parar de tentar continuar. Como por exemplo iniciar e continuar uma dieta alimentar, fazer desporto físico de forma regular, conhecer novas pessoas… Tudo o que nos coloca em situações mais vulneráveis, se tivermos oportunidade de nos desmarcarmos assim o fazemos, porque no fundo elas espelham bem as nossas “fragilidades” ou “músculos fracos” e ninguém gosta de se sentir assim. Estas situações fazem-nos perder confiança em nós ou colocam-nos auto-estima mais para baixo, daí muitas vezes acabarmos por desistir para não nos sentirmos assim.

E no caso do autismo, não se passa de forma diferente. A única diferença é que no caso do autismo, talvez os seus desafios sejam maiores e em áreas que a maior parte de nós neurotípicos “domina” facilmente, então por vezes temos dificuldade em entender ou ter empatia para aceitar que para eles o processo de aprendizagem pode ser mais lento ou tem de ser de outra forma, e gerar da mesma forma frustração neles e vontade de desistir das coisas que têm dificuldade. Para eles coisas simples como seguir instruções ou regras, pode ser efectivamente muito complicado, ou fazer coisas que para nós são “normais” e “adquiridas” – mas não quer dizer que seja impossível de o conseguirem! A nossa abordagem é que talvez tenha de ser diferente! 🙂

Por onde começamos?

1. Comece por observar a sua atitude quando está a trabalhar com a sua criança e ela não consegue fazer o que quer ou pede. Tente perceber como reage… Será que costuma encolher os ombros? Revirar os olhos? Respirar fundo? Fazer algum tipo de comentário? Em que situações elogia mais a sua criança? Quando a sua criança tenta fazer algo ou quando ela tem efetivamente sucesso?

Seja qual for a resposta a estas perguntas não se martirize nem se sinta mal! Somos todos, acima de tudo, seres humanos, com as nossas dúvidas, receios, angústias e próprias frustrações e não tem mal nenhum! O importante é reconhecer os nossos medos que temos sobre esta questão – de tentar algo e focar-se na mudança que queremos ver nas nossas crianças.

Uma coisa que pode começar a fazer, é usar qualquer oportunidade para incentivar a sua criança a tentar. Modele exemplos seus nos seu dia-a-dia para a criança observar e ver que as tentativas fazem parte do processo para termos sucesso e conseguirmos fazer as coisas. Faça tentativas deliberadas no seu dia-a-dia em casa quando está com a criança e explique o que está a acontecer. Por exemplo quando estiver a cozinhar, explique a dificuldade que tem em acertar com a quantidade certa de água para o arroz ficar bom e soltinho como todos gostam, quando estiver a cozer uma peça de roupa expresse a dificuldade que tem em acertar com a linha na agulha e divirta-se a tentar e a tentar até conseguir… Estes são apenas alguns exemplos mas com certeza haverão muitos mais! Aproveite as dificuldades que tem no dia-a-dia e “exagere” nessas dificuldades para partilhar com a sua criança que também as tem, que é normal e que não se importa de tentar e tentar até conseguir! Torne o processo de tentar tão natural, que já nem se apercebe que está a “tentar”.

2. Não sabote as tentativas da sua criança. Quantos de nós por vezes não se sente mal de ver a nossa criança a tentar e a tentar, mas como não está a conseguir, tentamos facilitar inconscientemente o processo? Precipitamo-nos para ajudar que nem damos espaço à criança para tentar e errar ou tentar e conseguir. As nossas crianças por vezes demoram mais tempo a processar a informação que lhes é dada, e ao reagirmos demasiado rápido na tentativa de os ajudar, pode na verdade lhes estar a retirar a oportunidade de fazerem por eles e conseguirem.

Imagine o caso de uma criança não verbal ou pouco verbal. Está a tentar incentivar a sua criança a dizer uma sílaba ou uma palavra para ter o que quer. E vê que a criança está a tentar e a tentar de forma repetitiva mas está com grande dificuldade. Inconscientemente ajuda-a a terminar a palavra ou diz a sílaba por ela, ou vai a correr buscar o que quer antes de ela ter terminado de tentar. É fundamental que não evite, reduza ou torne mais fácil as tentativas da sua criança. A sua criança continua a tentar e não está a conseguir? Ótimo! É um músculo fraco que temos que trabalhar e é na dificuldade que o conseguimos fazer.

Claro que temos sempre de ter em conta o nível de desenvolvimento da criança e o pedido que lhe está a ser feito – ter em atenção que a criança tenha as bases para conseguir fazer o que lhe estamos a pedir. Não vamos pedir a uma criança completamente não verbal a dizer já uma frase ou uma palavra completa – vamos antes começar pelas sílabas, começando por sílabas com sons que ela já diz… Queremos dificultar e estimular a ultrapassar os seus desafios, mas de forma consciente e tangível 🙂 Tenha em atenção que o grau de desenvolvimento e o grau de desafio que está a sugerir à sua criança, não estejam demasiado desfasados – não queremos tornar as coisas de propósito mais difíceis para eles, queremos sim ajudá-los a fazer este processo naturalmente, como todos nós fizemos e fazemos.

Pense nisto… Quando inicia uma atividade física ou um desporto em especifico, começa por aprender as bases, ganhar resistência, força e depois faz exercícios mais avançados. Depois de todo este trabalho inicial… No caso do autismo é igual… Comece pela base, pelo básico e vá aumentando o grau de desafio pouco a pouco, à medida que a sua criança vai acompanhando e subindo os degraus da aprendizagem um a um.

3. Celebre cada tentativa da sua criança.

A celebração é fundamental para ajudar a construir a confiança e auto-estima da criança. E temos tantas oportunidades para o fazer… Quando a criança nos olha nos olhos, quando diz uma palavra ou uma frase, quando faz uma pergunta… E muitas vezes deixamos estas maravilhosas oportunidades de celebrar a criança, passar.

Inconscientemente fomos ensinados a estar mais atentos ao que está de errado ou ao que falta. Mas elogiar as nossas crianças não só é bom para elas, como também nos ajuda a ver o valor das pequenas coisas. Ajuda-nos a valorizar aquilo que na verdade importa.

A ideia á mudar o nosso foco – focar menos no que falta e celebrar mais o que já existe ou as tentativas de ser melhor. Vamos-nos focar nas mais pequenas realizações que as nossas crianças fazem ao longo do dia e vamos celebrá-las. A sua criança olhou para si? Pediu-lhe água ou comunicou-lhe que estava com fome? Comemore isso, celebre a criança e agradeça o facto de ela ter pedido tão bem, explicando que dessa forma consegue ajudá-la sempre que precisa. Mesmo que já o faça ou já o tenha feito, continue a fazer. Celebrar a sua criança vai aumentar as probabilidades de a criança voltar a repetir essa mesma ação, vai-lhe mostrar o quão animado e feliz está pelo o que ela fez, vai-lhe dar valor e reconhecimento e vai ser divertido para ela.

A ideia aqui é começar a celebrar cada pequena coisa que já faz e celebrar mais ainda sempre que a sua criança tenta. Se quer que a sua criança aponte para as orelhas mas aponta para a barriga, celebre! Celebre, modele o que gostaria e volte a incentivar a tentar – “Uaaaau, estás tão perto! Que excelente tentativa! Estás quase quase, vou-te mostrar como fazer para te ajudar…!” – Comece por exemplo a fazer-lhe cócegas na barriga explicando que é a barriga e vá até as orelhas explicando onde estão e onde queria que tivesse apontado. E convide-a a tentar de novo de uma forma motivadora e animada.

4. Mantenha este pensamento…

Sempre que a sua criança estiver com dificuldade em alguma coisa ou a fazer alguma coisa, ou estiver a fazer algo “mal”, não se deixe levar pela preocupação ou ansiedade. Pense antes – que excelente oportunidade para ajudar a minha criança a ser uma pessoa que tenta! E encoraje a sua criança a continuar a esforçar-se, mostre-lhe que está com ela e que é a sua maior claque! 🙂