Comportamentos auto-agressivos: O que fazer?

Muitas vezes no espetro do autismo, podemos assistir a vários comportamento de auto-agressão nas nossas crianças, tais como: bater com a cabeça na parede/chão, até fazer hematoma; ver a criança a morder a mão com tanta força que fica a marca dos dentes; a criança a auto agredir-se a si própria com estaladas ou até mesmo murros na sua própria cabeça, barriga ou outra parte do corpo…

É um momento que pode ser muito difícil de gerir, principalmente para pais e cuidadores, pois ver a sua própria criança a auto agredir-se pode ser bastante angustiante e o medo invade muito facilmente sendo o nosso foco tentar arranjar estratégias para manter a criança em segurança. Pode surgir muitas vezes sentimento de culpa por parte dos pais, por não conseguirem gerir a situação da melhor forma ou impedir que as suas crianças tenham este tipo de comportamentos. Mas é importante ter presente em mente, que cada um está a fazer o seu melhor, tanto a criança como o cuidador.

A nossa primeira preocupação deve ser efetivamente pensar em estratégias ou formas de manter a criança em segurança. Nestas alturas, quando este tipo de comportamento aparece, é importante conseguir oferecer alternativas à criança, tais como:

  • se a sua criança bate com a cabeça nas paredes ou no chão, pode pegar numa almofada/bola mais macia/bola de Pilates/cobertor grosso e colocar entre a cabeça da criança e a parede para amortecer o choque e suavizar a superfície;
  • se a sua criança estiver a morder a sua mão com força, pode oferecer-lhe outros objetos (como brinquedos de borracha) que possa morder;
  • se a sua criança usa algum brinquedo duro para bater nela própria, pode calmamente e devagar retirar-lhe o brinquedo e colocar fora do seu alcance. Pode sugerir em contrapartida uma massagem com mais força ou apertos para a ajudar a ultrapassar esse momento.

Apesar de podermos sugerir estas alternativas e tentar colocar em prática estas estratégias, na maioria dos casos, constatamos que as crianças não aceitam estas alternativas. Fogem para outro sítio da parede, tentam-se afastar de nós, ignorando as nossas sugestões. O que nos faz questionar: porque será que as nossas crianças continuam a ter estes comportamentos se à primeira vista inflingem tanta dor?

Outro aspecto importante a termos sempre em mente, é que no espetro do autismo, temos de olhar para as coisas com um olhar diferente, fora da caixa e tentar entender o porquê de cada comportamento. Todo ele é uma forma de comunicação e muitas vezes o desafio está em tentar entender o que a criança nos pretende transmitir.

No caso dos comportamentos de auto-agressão, estes não são exceção à regra. Vamos tentar olhar para eles de uma forma diferente… Experimente bater com a sua testa contra a parede. Se reparar bem, na maior parte dos casos, as crianças batem com a parte da frente da cabeça – com a testa – a parte mais dura do crânio. No caso de morder aos mãos, a maior parte das crianças dentro do espetro, morde a parte grande e macia da mão logo por baixo do polegar. Tente agora morder essa parte com mais força e verá que muito provavelmente deixará a marca dos seus dentes, mas irá perceber que isso não provoca assim tanta dor.

Outro aspecto a ter em atenção, é que muitas das nossas crianças têm também uma sensibilidade à dor diferente da nossa, sendo que batem até ao ponto que conseguem suportar. Os seus corpos e sistemas sensoriais são bem diferentes dos nossos e o que a nós nos pode magoar, para elas poderá não ser o caso.

Muitas das crianças dentro do espetro são hiposensíveis – não sentem a dor da mesma forma, sendo que em alguns casos, precisam de um aumento nos estímulos que recebem (como aumento de pressão nas mãos/pés/cabeça) para sentirem o próprio corpo e terem noção do mesmo. Algumas crianças relatam sensações de dormência nas extremidades do corpo, sendo para elas necessário estímulos maiores.

Tendo em mente estes últimos tópicos apresentados e tendo em conta que as nossas crianças são muito inteligentes, podemos olhar para os comportamento de auto-agressão de uma nova perspetiva. Uma criança que apresente este tipo de comportamento está a tentar comunicar connosco e nesse sentido é importante estarmos atentos e observar. É importante descobrirmos o que a criança nos está a tentar comunicar, para lhes podermos oferecer o que realmente estão a pedir.

A nossa atitude é fundamental ao longo deste processo. É fundamental conseguirmos manter uma postura de calma e disponibilidade, bem como, desejo de ajudar a criança.

Começamos por apresentar as principais razões deste tipo de comportamentos. Geralmente são: 

  1. “Preciso de mais controlo. Por vezes o mundo há minha volta é “esmagador” e fora do meu controlo. E quero ter mais controlo da minha vida. Bato com a minha cabeça quando me levam lá para fora porque lá há muito estímulo. Bato com a minha cabeça quando o meu irmão está a fazer muito barulho porque sobrecarrega o meu cérebro. Quero menos estimulação e mais controlo da minha vida.”
  2. “O meu corpo precisa de “informações físicas”. Às vezes não me parece bem, então bato com a minha cabeça de forma aliviar a pressão ou para me ajudar a sentir o meu corpo. Ele muda todos os dias, eu não posso controlar as sensações que sinto no corpo, por isso mordo a minha mão ou bato com a cabeça para tentar ajudar o meu corpo a sentir-se melhor.”
  3. “Acumulação de muita energia e sendo o entusiasmo tanto, está é a forma que encontrei para o libertar.”
  4. Provocar reações nas pessoas ao seu redor.

Como podemos ajudar:

  1. Arranje um espaço em casa livre de estímulos e deixe esse espaço acessível à sua criança para ela poder passar lá mais tempo. Este será o espaço para ela se sentir menos sobrecarregada. Muitas das crianças que batem com a cabeça, mordem as mãos, … – reduzem ou eliminam imediatamente estes comportamentos quando diariamente passam parte do seu tempo num espaço livre de estímulos. Pode estar com ela ou pode permitir que este seja o seu tempo sozinha na sala ou num espaço silencioso.
  2. Dê à sua criança mais controlo e lembre-a de quanto controlo ela tem. Ao longo do dia podemos oferecer maior controlo às nossas crianças. Podemos ficar calados quando elas nos pedem, podemos juntar-nos aos seus comportamentos repetitivos e reproduzi-los, podemos dar-lhes os brinquedos que elas querem, só podemos jogar os jogos que elas querem que nós joguemos, podemos dar-lhes opções de escolha ao longo do dia “queres pêra ou maçã para o lanche? queres duas ou três colheres de sopa para o jantar?”. Quanto mais controlo lhes dermos, mais as nossas crianças se sentirão no controlo e menor vai ser a necessidade de bater com a cabeça. E quando lhe der o controlo, mostre-lhe que o fez: “Vês como isso foi rápido! Quando me disseste que não, eu arrumei-o rapidamente. Não é bom seres tu a mandar aqui?”.
  3. Ofereça à sua criança mais estímulos físicos. Se a sua criança começar a bater com a cabeça ofereça apertos na cabeça, mandíbula e pescoço. A sua criança pode querer apertos ou arranhões muito leves para se ajudar a auto regular. Se a sua criança recusar apertos na zona da cabeça pode oferecer apertar os pés. Siga o que a sua criança permitir, lembre-se que a ideia é dar-lhe total controlo. Se sentir que a sua criança vai entrar nesse comportamento, tente antecipar e ofereça os apertos antes do período, se possível. Aperte diretamente no lugar que a criança está a bater. Se ela estiver a bater a cabeça contra o chão, tente apertar a cabeça dela.
  4. Se a sua criança bate com a cabeça frequentemente, faça uma pesquisa sobre a terapia craniossacral. É uma forma de massagem que ajuda a melhorar o alinhamento do crânio e, portanto, permite que ele se sinta mais confortável.
  5. Ofereça diversas formas à criança para libertar a sua energia como colocar pressão em cima do seu corpo com uma bola de Pilates enquanto está deitada, correr às voltas da sala ou saltar no trampolim.
  6. Pergunte a si mesmo: “Como me sinto em relação a isto?”. A maioria das pessoas sente-se desconfortável nestas situações, e a criança percebe esse sentimento, podendo ser um gatilho para continuar a ter o comportamento. Não se preocupe se tem se sentido mal, pode sempre dar a volta a isto. Quando sentir e agir calmamente (não reagir de forma divertida), o seu filho não vai receber a mesma reação de si, e pode diminuir significativamente o comportamento.
  7. Questione ainda a si mesmo: é desta forma que a minha criança consegue o que quer? Muitas vezes as crianças recebem o que querem assim que começam a bater com a cabeça ou a baterem em si mesmas, então acabam por saber que têm o que querem quando fazem isso, usando o comportamento auto-agressivo como forma de comunicação para conseguirem o que querem. Se este for o caso, tem que torná-lo num método ineficaz para não dar mais à criança o quer quando o faz, mostrando-lhe que este comportamento não lhe é útil.
  8. Analise a alimentação da sua criança. Se a sua criança tem comportamentos de auto-agressão com muita frequência, pode ser uma reação a algo que está a comer. Muitas vezes, as nossas crianças batem com a cabeça por causa da ingestão de açúcar: muito açúcar processado ou muito açúcar proveniente da fruta. As nossas crianças têm corpos mais sensíveis do que nossos e é frequente sofrerem de uma alergia alimentar ou sensibilidade ao açúcar, levando à manifestação deste tipo de comportamentos.