Desenvolver a comunicação verbal da sua criança: dicas & soluções

A área da comunicação verbal engloba duas componentes fundamentais: 1. alguém falar e 2. alguém estar a ouvir.
No caso das perturbações do espetro do Autismo, é uma área para eles muito desafiante. Alguns podem ter a comunicação verbal bem desenvolvida, no sentido que têm um vocabulário bastante extenso, conseguem fazer frases e responder a algumas perguntas, mas mesmo assim têm uma dificuldade em manter um diálogo com uma pessoa, sobre um tema que não seja dentro do seu foco de interesse, ou dificuldade em partilhar experiências/emoções/sentimentos.
Que estratégias podemos utilizar para ajudar as nossas crianças a usarem mais a comunicação verbal?
1. Seja um exemplo para a sua criança. Fale com ela como se estivesse a falar com uma pessoa com um discurso normal. Explique-lhe ao pormenor o que está a acontecer. Imagine que vai sair de casa para ir ao supermercado, explique ao detalhe onde vai, o que vai fazer e porque vai lá. Partilhe com ela como foi o seu dia, como se sentiu, o que mais gostou de fazer, como se sente agora que chegou a casa. Mesmo que a sua criança não esteja a olhar para si ou a falar consigo, não quer dizer que não esteja a ouvir.
2. Mostre vontade e disponibilidade em conversar com entusiasmo sobre um tema que a sua criança adora e acha interessante (ex: dinossauros, comboios, perguntas repetitivas como “que horas são?”). Queremos ser um modelo para as nossas crianças. Se queremos que conversem connosco sobre outros tópicos, queremos mostrar-lhes que nós também estamos dispostos a fazê-lo. E esse caminho deve começar do nosso lado, para depois começar suavemente a guiar a conversa para direções diferentes.
3. Faça perguntas. Se a sua criança estiver a falar consigo sobre um tema, coloque-lhe questões sobre o tema. Mostre que tem interesse no que ela está a partilhar consigo. Ao fazer isso vai estar a abrir uma janela de oportunidade, estará a criar uma ligação com a sua criança e após conseguir construir essa ligação, será mais fácil introduzir outros temas ou fazer perguntas sobre outras coisas que gostaria de saber. Numa fase inicial comece sempre do centro de interesse da sua criança e pouco a pouco vá esticando a sua flexibilidade para outros temas.
4. Comente. Quando a criança está a partilhar algo consigo comente o que ela partilhou consigo. Explique-lhe que gosta muito quando ela partilha essas coisas consigo, que gosta muito de a ouvir e agradeça o facto de ela ter partilhado. Pode comentar algo sobre o que acabou de lhe dizer, algo que esteja relacionado e que cative a atenção da criança para ela permanecer no diálogo consigo. Pode comentar que adoraria saber mais sobre o que acabou de partilhar. Em vez de a corrigir de forma contínua ou tentar mudar de imediato o rumo da conversa, celebre o facto de ela estar a comunicar consigo e construa um diálogo com base nessa interação. Faça a criança sentir que gosta de a ouvir falar e partilhar o que tem para dizer.
5. Partilhe uma história parecida. Crie pontos em comum e inspire a sua criança a comunicar mais consigo.
6. Dê espaço à sua criança para falar. Ouça mais e fale menos. Não tenha receio dos momentos de silêncio. As crianças no espetro do autismo demoram mais tempo a processar e verbalizar a informação, nesse sentido, dando estes espaços de silêncio, dá-lhes o tempo e o espaço para o fazerem caso queiram. Outra coisa que acontece nestas situações, é que estamos nós também mais atentos ao que nos dizem e consequentemente mais presentes e disponíveis para as nossas crianças. Quando estamos sempre a falar, estamos inconscientemente a pedir à criança que ouça e não que fale. Encorajar as nossas crianças a falar em vez de ouvirem é muito eficaz!
7. Crie pausas. Quando faz uma pergunta à sua criança, faça uma pausa de seguida e dê-lhe tempo e espaço para poder responder. Algumas crianças podem demorar até 3 a 4 minutos a responderem.
8. Modere as suas solicitações. Queremos tanto que as nossas crianças falem, que muitas vezes solicitamos demasiado a que falem connosco, criando uma pressão muito grande em torno desta área e tornado a comunicação verbal uma área ainda mais desafiante para eles. Outra abordagem mais eficaz, seria aprofundar o seu nível de ligação com a sua criança, através de um jogo ou atividade que seja do verdadeiro interesse da sua criança, sem o impulso ou a necessidade que falem obrigatoriamente. A chave está em motivar a sua criança a “querer” falar consigo. Envolva-se naquilo que ela mais gosta de fazer e será mais fácil para a sua criança desenvolver esta área.
9. Recrie situações sociais. Comece a modelar expressões ou frases específicas que gostaria que a sua criança aprenda. Recrie por exemplo através de um jogo ou atividade (tenha em atenção as motivações da criança) a ida ao supermercado – monte uma espécie de mercearia e mostre-lhe como interagir consigo. Pode ainda falar através de fantoches ou bonecos para a sua criança praticar as suas capacidades de conversação. Para algumas crianças pode ser mais fácil, pois nestes caso não há uma interação tão direta e não se sentem tão intimidadas com uma conversa mais direta. Muitas crianças podem responder mais facilmente principalmente a perguntas de “porquê” ou de sentimentos se recorremos à ajuda de uma das suas personagens favoritas como por exemplo um peluche do Mickey Mouse, Dora a Exploradora, etc etc – pois será a sua personagem favorita a fazer-lhe as perguntas.
Resumindo…
Se quer que a sua criança fale mais, o primeiro passo será dar-lhe espaço para o fazer. Isso irá implicar que: 1. fale menos, 2. se sinta confortável com o silêncio, 3. se foque no ouvir. Ajude a sua criança a construir confiança em comunicar socialmente. As crianças ficam motivadas a usarem as suas competências verbais com os outros, quando lhes é mostrado e quando vêm os benefícios que isso lhes poderá trazer.