Estereotipias: O que são, qual a sua função e como lidar com elas?

O que são as estereotipias, os chamados comportamentos repetitivos?

(…) é como desligar o rádio quando pensas que cheira a alguma coisa a queimar. É uma maneira de desligar os outros sentidos para teres a certeza de que nada está a queimar. Lamar Hardwick

A estereotipia é qualquer comportamento motor, verbal ou emocional que acontece de maneira repetitiva e sem motivo aparente para quem observa.

Existem diversos exemplos que serão mais comuns nas crianças e jovens com PEA (Perturbações do Espetro do Autismo), tais como:

  • Balançar as mãos
  • Girar em torno de si mesmo
  • Um interesse excessivo em observar objetos que giram
  • Balançar o corpo para frente e para trás
  • Deixar o olhar fixo em um objeto e movimentar apenas a cabeça
  • Fazer sons
  • Alinhar objetos
  • Repetir frases, palavras, partes de músicas ou filmes fora do contexto considerado adequado
  • Gritar sem motivo reconhecido
  • Perguntas repetitivas
  • Entre outros…

Existem outros tantos exemplos que serão considerados também estereotipias. É importante relembrar que todas as crianças são individuais e, por isso, todos têm estereotipias diferentes consoante as suas motivações, interesses e, também, a sua idade. As esteriotipias podem então ser definidas como um comportamento que é repetitivo e exclusivo.

Ao longo do crescimento das pessoas com PEA, é comum estas irem também desenvolvendo estereotipias diferentes que têm um carácter mais avançado como rituais, rotinas e compulsões. Também se podem tornar habilidades como gostar de futebol e saber tudo sobre isso, quais as regras, equipas nacionais e internacionais, querer colecionar revistas sobre esse tema e o querer falar sempre com vocês sobre isso.

Nós todos, tecnicamente, também temos as nossas estereotipias, mas acabam por ser mais “disfarçadas” por não serem tão frequentes e serem aceites socialmente, tais como: abanar o pé, desenhar círculos, traços ou corações, abanar a caneta, enrolar o cabelo repetidamente, roer as unhas ou morder a tampa da caneta.

Porque são importantes? 

Às vezes a estimulação sensorial é demais, e eu sinto que poderia explodir. Estereotipia é libertar a tensão e faz-me sentir muito mais calma. Lucy Clapham

Ajuda o meu corpo a regular a informação sensorial do mundo. Laura Ivanova Smith

As estereotipias são comportamentos autor-reguladores que provêm de alguma necessidade que a criança ou o jovem tem e que não está a ser cumprida. Às vezes essa necessidade é até desconhecida mas, muitas das vezes, são causadas pela hipersensibilidade que estes têm no mundo e é a forma mais eficaz que têm para se controlarem e acalmarem.

Por exemplo, se estiverem num ambiente com muito barulho ou luz ou num lugar que lhes crie stress ou ansiedade, a criança vai procurar a estereotipia para se acalmar e autorregular. Se for negada, pode até levar à birra ou crise.

Outra das razões para que as crianças utilizem a estereotipia é para criarem previsibilidade, ou seja, elas desejam que as suas vidas sejam mais previsíveis num mundo que não conseguem controlar e, por isso mesmo, usam comportamentos repetitivos e exclusivos para terem previsibilidade e saberem o que virá a seguir. O nosso mundo é uma constante imprevisibilidade e estimulante, e o conforto e controlo é procurado na estereotipia.

É importante entendermos que não é um “problema” mas sim uma forma de a criança se sentir mais confortável, tranquila e relaxada. É essencial aprendermos a aceitar, respeitar e não julgar a sua forma de ser. A criança sentirá isso e, assim, mais facilmente, criaremos uma relação com ela.

Como lidar com elas?

Criar qualquer relação começa com a base de um interesse em comum e no caso das nossas crianças dentro do espetro não é diferente. Comece por ir na sua direção, interessar-se pelo o que os interesse, amar o que eles amam e fazer com eles o que eles fazem. 

Em vez de travar ou desviar a atenção da vossa criança para outra coisa, já experimentaram juntar-vos à vossa criança na atividade exclusiva que está a fazer? Juntarmo-nos à nossa criança tem um papel fundamental. Demonstramos que temos interesse no que está a fazer, que pode contar connosco, pode confiar em nós pois não iremos parar algo que naquele lhe está a fazer bem. Ao ter esta abordagem, iremos ter a atenção da criança, que é tudo o que nós queremos e iremos ter a oportunidade de nos conectarmos verdadeiramente com ela. Vejam a técnica do “juntar” como uma porta para a interação humana e social.

Mas como?  Seguem algumas dicas:

  • Quando a criança estiver em estereotipia é a oportunidade de se juntarem. Lembrem-se, esta é a melhor maneira de mostrarem à vossa criança o quanto a amam e o quanto querem se juntar e conectar com ela.
  • Estejam com alguma distância da criança, cerca de um metro e meio. Por vezes, principalmente no início, quando existe distância física, a mesma vai se encontrar relaxada e aceitar a vossa presença. Apenas tenham em consideração que a criança tem que vos conseguir ver;
  • Observem! Criem um “retrato visual” do que estão a ver. Prestem atenção a todos os detalhes da estereotipia da criança e tentem encontrar algo que vos seja igualmente agradável e possam gostar. A ideia não é imitar. É perceber qual o ritmo, a cadência, quais as sensações que a criança retira daquele comportamento e reproduzirem à vossa maneira, sem estarem focados em imitar na perfeição mas sim a tentar sentir o que ela está a sentir.
  • Juntar não é uma perda de tempo. Acreditem, é importante para ela. Mesmo que a vossa criança não esteja a olhar diretamente para vocês ou a interagir, ela sabe que, se vocês estão a fazer o mesmo, é porque estão interessados nela. Isso é uma grande oportunidade para ela querer interagir convosco. E quanto mais se juntarem, mais tempo a criança terá para aceitar uma nova interação mais tarde.
  • Criem o vosso próprio espaço. Se a criança correr à volta de uma mesa, corram à volta de outro móvel em vez de a seguirem. Se esta alinhar objetos, alinhem também, mas outros objetos que não sejam os que ela está a usar. Se ela vos tirar os vossos objetos, não recusem, continuem a fazer o movimento, mesmo sem objetos – é importante dar-lhe total controlo. Se a estereotipia for em palavras, repita o que a criança diz mas num tom mais abaixo para não atropelar o que a criança está a dizer e criar demasiado estímulo para ela. Se a estereotipia for uma conversa do mesmo assunto ou perguntas repetitivas, entrem na conversa com todo o vosso interesse e entusiasmo! Assim, irão estar a respeitar o espaço da vossa criança e a “entrar” calmamente na brincadeira e estereotipia dela.
  • Divirtam-se! Sorriam, riam-se, façam de coração e com animação. Estejam a 100% com a vossa criança. Ao juntarem-se, ao estarem felizes e animados nas suas brincadeiras e estereotipias, irão mostrar à vossa criança que a amam tal como ela é e irão estar cada vez mais próximos da vossa criança.
  • Quanto mais se juntarem, mais irão aprender sobre a vossa criança. Irão entender as suas motivações e interesses e isso vai ajudar-vos a tornarem-se mais próximos dela e terem mais conhecimentos para a ajudarem.
  • Relaxem… Não procurem constantemente um olhar ou uma resposta da vossa criança. Observem a sua atividade, desfrutam da atividade e estejam atentos quando ela vos mostrar qualquer interação.
  • Quando a vossa criança aceitar a vossa interação, quando ela olhar para vocês, quando ela vos responder… Celebrem! Agradeçam! Festejam! É importante ela perceber que isso é algo positivo e o olhar, responder, interagir com vocês é bom!
  • Esforço, paciência e persistência. É importante saberem respeitar o espaço e ritmo da vossa criança e deixá-la liderar este caminho inicial. Tenham em foco o vosso objetivo: criar uma relação com a minha criança mas sem esquecer da importância de darmos espaço a ela quando ela não quiser.

Esperemos que se divirtam e desfrutem ao máximo com as vossas crianças!