Como diferenciar crises e birras

As crises e as birras são muito semelhantes e por essa razão, são por vezes difíceis de distinguir. Mas a sua distinção é importante para sabermos como agir ou que estratégias aplicar para em ambos o casos, ajudar a criança.

Uma coisa que temos de ter sempre presente em mente é que qualquer comportamento é uma forma de comunicação. Quando a criança chora, grita, morde, se auto-agride… Está a tentar comunicar algo e o nosso desafio é tentar entender o que nos está a tentar dizer para ajudá-la por sua vez a comunicar de uma forma mais eficaz. Quais as principais diferenças? Uma é orientado para o objetivo vs sobrecarga.

Birras: uma birra de uma criança normalmente resulta da frustração de não conseguir o que quer naquele momento – seja um brinquedo, seja capaz de abotoar as suas próprias camisas ou não querer ir para a cama. Ou a frustração de não conseguir o que querem, não ser capaz de fazer o que eles querem, ou mesmo de não conseguir comunicar o que eles querem de maneira apropriada. Na birra a criança consegue ter o controlo sobre o seu comportamento e o comportamento termina quando ela consegue o que quer. Pode parar o tempo necessário para garantir que alguém está a olhar para ela e voltar à birra assim que for o centro das atenções. As birras tipicamente param quando a criança consegue o que quer ou quando se apercebe que não irá conseguir o que quer ao agir desta forma.

Crises: nas crises, a criança não tem controlo sobre os seus comportamentos e também não tem por objetivo conseguir algo em específico. O que está a fazer é libertar energia causada por uma sobrecarga emocional ou sensorial. Uma criança pode ter uma crise se se sentir sobre-estimulada ou bombardeada. As crises acontecem geralmente quando há informação em demasia para ser processada pelo cérebro da criança. Para algumas das crianças, um parque de diversões pode produzir informação sensorial, incluindo cenários, sons e cheiros, mais depressa do que a criança os consegue processar. Para outras crianças, a perspectiva de ter que tomar um grande número de decisões pode provocar uma crise. Para estas crianças, algo tão simples como experimentar novas roupas para levar para a escola ou fazer um teste importante pode causar uma crise. Uma crise normalmente continuará mesmo após ter conseguido o que a criança queria porque, em muitos casos, a criança nem sabe o que quer. As crises tipicamente terminam de uma destas formas: a criança fica esgotada, encontra um ambiente sossegado com menos informação sensorial, ou nós respondemos de forma diferente à habitual.

Concluindo: 

As birras precisam de uma plateia. O comportamento geralmente irá parar quando é ignorado ou quando a criança consegue o que quer. Uma crise por sua vez pode acontecer com ou sem plateia. Ela pode acontecer quando a criança está sozinha. É a resposta de uma sobrecarga de estímulo externo que leva a uma explosão emocional (ou implosão).

Depois de identificar, como lidar com uma birra ou uma crise?

As birras e as crises são coisas diferentes, mas sugerimos que use uma abordagem semelhante com cada uma delas:

Para lidar com uma birra, reconheça os desejos da sua criança sem ceder a eles. “Compreendo que queres mais fruta. Vais poder comê-la ao jantar”. Depois ajude-a a usar uma forma de comunicação mais útil para conseguir o que quer. “Quando tiveres acabado de gritar e conseguires falar calmamente, diz-me que tipo de fruta vais querer para sobremesa”. Quando lidamos com uma birra, é um comportamento indesejado para conseguir algo e a melhor forma de trabalhar este comportamento de modo a que desapareça é não ceder ao que a criança quer. As explicações nestes momentos são fundamentais – explicar que não irá conseguir o que quer através daquele comportamento, que existem outras formas de pedir (sem gritar, sem chorar…). No caso de não ser possível dar aquilo que a criança quer, mesmo que o faça através de comportamentos desejáveis, informamos a criança de que não irá obter o que quer e porquê e oferecemos alternativas do que ela pode ter ou fazer naquele momento (antes do comportamento indesejado começar).

Ignorar estes comportamentos funciona para algumas crianças, mas para outras, ignorar pode levar a que a birra se torne numa crise, pela sobrecarga emocional e sensorial que causa. Caso isso aconteça, o que sugerimos é que fique ao lado da criança, mas sem dar tanta atenção. Seja o seu porto seguro e o que iremos fazer é a hetero-regulação, ou seja, ajudar a criança a ficar calma, estando nós calmos (como se fôssemos espelhos). É fundamental sentir-se calmo nesta altura, pois se estiver calmo, a criança acabará por se acalmar.

Pense numa situação de stress para si (como ter um acidente de carro, estar preocupado com uma reunião de trabalho importante que irá ter, etc…), ficaria provavelmente mais calmo se tiver uma pessoa do seu lado serena e tranquila que lhes transmite bons pensamentos, ou se tiver do seu lado uma pessoa que alimenta a sua ansiedade e ela também se encontra nervosa ou stressada? Com as nossas crianças é igual e no autismo este factor é ainda mais importante, sendo elas por norma mais “sensíveis”.

Para lidar com uma crise, ajude a sua criança a encontrar um sítio sossegado para se acalmar. Uma ambiente calmo oferece ao cérebro da sua criança a possibilidade de ter um momento para processar a informação sensorial. Convide a sua criança a ir para um lugar sossegado e sente-se calmamente ao seu lado para ser uma presença que lhe traga alguma tranquilidade. Ofereças massagens de alta pressão (como abraços mais fortes) se isso funcionar com a sua criança – normalmente funciona muito bem para crianças hiposensíveis tácteis. Ofereça coisas à sua criança que saiba que a poderão acalmar (festas no cabelo, apertar as mãos/pés, ficar deitados na cama, cantar uma música calma baixinho…). O objetivo é reduzir a quantidade de informação recebida pela sua criança e ela encontrar em si um porto de abrigo que lhe traz a calma e tranquilidade que naquele momento precisa.

Esteja atento ao padrão comportamental da sua criança. Perceber o que desencadeia uma crise pode ser muito útil. Se tiver consciência dos factores que a despoletam, poderá criar estratégias para antecipar o comportamento e este nem acontecer. A sua criança é sensível a sons? Se estiver num lugar com demasiada estimulação sonora sugira à sua criança de colocar os abafadores de sons nos ouvidos antes de chegarem ou procure um lugar mais calmo para levar a criança. Os sintomas que aparecem antes da crise acontecer podem ser variados como a criança ter mais comportamento estereotipado, pedir para sair do espaço ou simplesmente fugir, começar a ficar mais agitada, etc… Se perceber os factores que provocam a crise poderá preveni-la antes que aconteça.