A importância e impacto da nossa atitude no trabalho com as nossas crianças

Muita gente pretende aprender as técnicas e as estratégias para trabalhar com uma criança com autismo e desvaloriza o papel da atitude. Acreditamos que o conhecimento e a educação é muito importante mas também defendemos, essencialmente, que é mais importante COMO fazemos e não apenas O QUE fazemos. Por mais que se tenha toda a técnica/estratégia, sem atitude dificilmente irá funcionar. 

A nossa atitude tem um impacto enorme na responsividade da nossa criança, principalmente pelos seguintes aspectos:

  1. As crianças com autismo são mais sensíveis ao seu ambiente e, facilmente, se sentem sobrecarregadas.
  2. Têm dificuldade em processar entradas sensoriais, por isso, é preciso ter em conta que a sua criança está a processar da melhor maneira que consegue tudo o que acontece à sua volta.
  3. Vivemos num mundo muito imprevisível, no qual não temos qualquer controlo e as nossas crianças gostam de previsibilidade.
  4. Sendo o autismo uma perturbação da relação e da comunicação, as nossas crianças têm dificuldade em deixar o seu “mundo” e criar conexões à sua volta. 

Tendo em conta os pontos acima referidos, e se, para além disso, as nossas crianças estiverem com alguém que não está confortável ou que está mais agitado, sentem isso como uma ameaça o que resultará a fechar-se mais e a criar mecanismos de proteção. Se, contrariamente, estiverem na presença de alguém que está relaxado, confortável, tranquilo… recebem isso como um convite seguro e serão mais responsivas, mais conectadas, mais flexíveis e consequentemente mais interativas. 

Para além disso, a nossa atitude determina o nosso sucesso em ajudar a nossa criança a atingir o próximo patamar. A nossa sociedade atualmente ainda tem muito presente um estigma negativo sobre o autismo. Quando é dado o diagnóstico de que a criança tem perturbação do espetro do autismo, normalmente, vem seguido de frases negativas como “não há nada a fazer”, “a evolução vai ser pouca”, “nunca será autónomo”, entre outras. Está na altura de mudarmos esse pensamento negativo e agarrar-mos nas capacidades das nossas crianças e mudar o pensamento de “ela não é capaz” para “ela AINDA não é capaz” e acreditar que conseguirá no seu tempo. Ao não acreditarmos, existem diversas consequências que irão surgir: 1. não iremos encorajar a nossa criança a adquirir novas competências porque não acreditamos que seja capaz; 2. não vamos ser tão persistentes e iremos acabar por desistir passado pouco tempo e, para algumas crianças, é preciso mais tempo e persistência; 3. iremos comunicar, indiretamente, à nossa criança que não acreditamos nela e surgirá uma maior desmotivação por parte da criança em desafiar-se a si própria; 4. não vamos conseguir identificar quando a criança atinge um objetivo e até podemos sabotar sem querer as suas tentativas. 

Por exemplo,  se, numa criança não verbal, acreditarmos que nunca irá falar, a mesma poderá até tentar comunicar connosco de forma verbal, mas como achamos que é algo que nunca fará, nem reparamos e/ou não incentivamos a criança e ela não se sentirá motivada a usar a comunicação verbal uma próxima vez.  

A nossa atitude e o que pensamos reflete na nossa criança pois as nossas atitudes são transmitidas consoante o que pensamos e o nosso estado de espírito, e isso reflete sempre na nossa criança e na sua resposta. Ela sentirá o que estão a sentir e isso poderá ter impacto mais tarde nas interações futuras. O pensamento “a minha criança não vai gostar” ou “a minha criança não vai fazer” reflete-se na nossa expressão facial e corporal, às vezes sem nós nos apercebemos. 

A verdade, é que não podemos estar sempre a 100% e também temos direito a ter dias menos bons, mas ter consciência do impacto da nossa atitude e ter a capacidade de alterar também nos irá ajudar a nós próprios a estar bem e mais tranquilos com a situação. Tudo flui e tudo fica mais fácil. 

Já entendemos que a nossa atitude tem um grande impacto na nossa criança. E é importante também perceber que isso também terá impacto em nós próprios. Ao termos uma atitude frustrada e/ou stressada, acabamos por ficar mais desmotivados. Ao termos confiança e determinação, ficamos mais motivados. Isto resulta para qualquer esfera da nossa vida. A nossa atitude terá sempre impacto na resolução dos nossos objetivos. Exemplo: Rotina de exercício físico, início de uma nova dieta, conseguir um objetivo pessoal, objetivo profissional, etc. 

Para terminar, a forma como vemos a nossa criança também influencia imenso todo o processo. Em vez de ver o que “falta à sua criança”, tente abraçar, sem julgar, onde a sua criança se encontra hoje. Quando estamos confortáveis e aceitamos o autismo da nossa criança, iremos apreciar mais cada momento, não porque devemos mas, porque realmente queremos. Quando acreditamos no que estamos a fazer e que este é o caminho, iremos manter-nos fiel a ele. Quando nos sentimos relaxados a maior parte do tempo, iremos sentir-nos menos cansados e iremos ter mais energia para oferecer à nossa criança. Quando nos sentimos confiantes em ajudar a nossa criança, iremos manter a motivação e consistência ao longo do tempo.