Como dar mais controlo e previsibilidade à nossa criança?

Por norma, quando as nossas crianças são mais rígidas ou controladoras, a nossa tendência é tentar “quebrar” esse comportamento controlador, tentando retirar o controlo à sua volta. O problema de ir por este caminho é que acaba por ser altamente contraproducente. Afirmar o controlo sobre alguém que está a tentar controlar leva a pessoa a ser ainda mais controladora. Quando as crianças sentem o seu controlo recusado, a tendência é lutar para restabelecer esse controlo e autonomia pessoal. 

 

Muitas vezes temos tendência a entrar em batalhas de controlo com as nossas crianças mas é importante que se escolha cuidadosamente, quais as queremos entrar e quais aquelas que podemos deixar de lado e ceder. Quando as pessoas estão numa experiência em que não têm controlo sobre a situação, podem reagir de forma muito particular, sendo que procuram a melhor forma de ganharem essa sensação de controlo. Esta procura de controlo por parte das nossas crianças, existe por dois grandes fatores: desafios de processamento sensorial e problemas de reconhecimento de padrões. Desta forma, as nossas crianças procuram situações nas quais possam exercer a sua própria autonomia vs ter a sua experiência determinada por outras pessoas e vão acabar por resistir intensamente a quaisquer esforços de tentarem impor controlo sobre elas.

 

Costumamos dar muitas vezes este exemplo, o exemplo de uma corda com um nó num meio. Se duas pessoas puxarem a corda de cada lado e se nenhuma delas ceder, a tendência do nó apertar será cada vez maior, não se conseguindo desfazer o nós. Mas se em contrapartida, um dos lados soltar um pouco, a corda ganha folga e será mais fácil desfazer o nó. No caso das nossas crianças, passa-se exatamente o mesmo, por vezes temos de soltar um pouco a corda para ajudar a nossa criança a sair dessa forma controladora. Quando forçamos as nossas crianças a fazer certas coisas como por exemplo lavar os dentes, escovar o cabelo, etc – podemos resolver a situação momentaneamente mas o problema desta abordagem é que a criança irá associar a aprendizagem a fazer algo com pressão e desconforto.

 

Queremos que as nossas crianças aprendam a viver num mundo com limites e regras, mas este controlo que lhes queremos dar numa fase inicial, não é para sempre. Por enquanto, queremos proporcionar-lhes uma situação que podem tolerar e de seguida, ajudá-las a avançar pouco a pouco, num ambiente acolhedor, divertido e de confiança, para serem capazes de lidar com cada vez mais sucesso nas interações sociais. Quando as nossas crianças ultrapassam os seus desafios, tornam-se mais interativas, mais comunicativas, mais abertas e é então nessa altura que podemos ajudá-las com as regras do “mundo real”. 

 

Então já que o controlo é tão importante como podemos dar mais controlo à nossa criança para que ela fique mais relaxada, mais tranquila e consequentemente mais flexível?

 

  • Recorram sempre que puderem a explicações. Muitas vezes caímos no erro de achar que as nossas crianças não entendem, mas não é por não falarem connosco, que não entendem o que temos para lhes dizer. Por vezes temos de sair para uma consulta e avisamos no momento que vamos sair de casa que temos ir embora, mas não explicamos à nossa criança onde vamos, nem fazer o quê e ela recebe a informação que tem de sair de casa, parar muitas vezes de fazer algo que estava a gostar, no momento que tem de sair de casa e fica tudo muito confuso para ela, pois são várias coisas que tem de assimilar ao mesmo tempo. O que é óbvio para nós pode não o ser para elas e por vezes é necessário dar explicações detalhadas do que irá acontecer e porquê. Estas explicações ajudam as crianças a assimilarem a ideia do que irá acontecer e quando o momento chegar já não será novidade pois anteriormente teve tempo de interiorizar a mensagem que lhe estávamos a tentar passar.

 

  • Sempre que puderem, em situações do dia-a-dia, deixem a vossa criança escolher o que quer. Por exemplo, na hora da sopa perguntem-lhe se quer duas ou três colheres de sopa. Quando estiverem a voltar da escola a pé com a vossa criança e poderem ir por dois caminhos diferentes, deixem a vossa criança escolher qual o caminho que quer fazer. Ao dar esta opção de escolha e a criança puder escolher, vai-lhe dar sensação de controlo pois irá sentir que foi ela que decidiu o que irá acontecer a seguir. Criem vários momentos e oportunidades ao longo do dia para a vossa criança poder escolher, momentos que não interfiram com a vossa dinâmica e que não haja problema de ser a criança a escolher. 

 

  • Quando estiverem numa brincadeira com a vossa criança, deixem numa fase inicial ela liderar o caminho. Façam o que ela está a fazer vs propor uma atividade nova. Brinquem do que está a brincar e se ela vos disser que “não” respeitem o “não”, celebrem o facto de o ter comunicado e mais importante, não façam o que ela vos pediu claramente para não fazer. Queremos que as nossas crianças percebam que somos pessoas em quem podem confiar, que as ouvimos e respeitamos o que nos dizem.

 

Quando damos às nossas crianças controlo absoluto o que vemos é que se aproximam mais de nós, querem interagir mais connosco porque somos 100% previsíveis e isso é muito importante para as nossas crianças pois elas acham o mundo incrivelmente imprevisível.  Na verdade, queremos ser as melhores pessoas com quem as nossas crianças podem estar, para as ajudar nos seus desafios e ajudá-las a interagir cada vez mais e mais com o mundo à sua volta. 😊