Dicas para desenvolver a autonomia da tua criança

Se há momentos em que nós temos que ser colo e mostrar à nossa criança o quão úteis somos e o quanto a queremos ajudar, também temos que entender quando é o momento de começar a trabalhar a autonomia da criança, para que ela seja capaz de fazer tarefas sozinha e que se sinta bem por poder fazê-las sozinha. É um passo natural no desenvolvimento das crianças, pode acontecer mais tarde, pode acontecer de forma diferente, mas é importante promovermos a autonomia, dentro do que é possível para a nossa criança.

 

Antes de mais, é importante salientar, que quando falamos em autonomia, na verdade esta palavra/conceito, engloba muita coisa: desde a criança conseguir comunicar, estar numa interação, ter flexibilidade para aceitar mudanças, alterações de planos, etc. Quando queremos desenvolver a autonomia da nossa criança é importante ter em conta todas as áreas do desenvolvimento: tais como o contacto visual, comunicação não verbal e comunicação verbal, tempo de atenção conjunta, flexibilidade, saúde e comportamento. De facto a autonomia engloba que a nossa criança se desenvolva em todas estas áreas e não apenas em algumas, pois esta será a base para que futuramente possa ter uma vida autónoma.

Sendo a autonomia um conceito tão geral é importante sermos bastante específicos no que queremos trabalhar para ajudar a alcançar o nosso grande objetivo: a criança ser autónoma. Desta forma, sugerimos que comeces pela base, com os desafios atuais da tua criança hoje e que trabalhes e ajudes a tua criança a superar esses mesmos desafios. Temos de olhar para o processo de desenvolvimento e aprendizagem da nossa criança como uma escada em que temos de subir degrau a degrau, etapa por etapa para conseguirmos chegar à nossa meta final. Definir como objetivo trabalhar a autonomia da nossa criança é demasiado complexo, nesse sentido é fundamental começar com objetivos curtos e específicos que sejam mensuráveis que ajude a tua criança a passar para a próxima fase. 

 

Atividades da vida diária

Agora que já tens a big picture, vamos dar alguns exemplos de atividades da vida diária que consideramos que também estão relacionados com a autonomia, mas numa fase que a criança já se encontra mais conectada com o mundo à sua volta:

 

Atividades vida diária mais simples

O modelo é sempre o mesmo: Modelar – Criar jogos/desafios com base nos interesses da criança – Modelar

  • Tarefas diárias como fazer o seu pequeno almoço, ajudar a limpar ou pôr a mesa

Para tarefas deste género é importante que exista uma modelação da nossa parte. Alguma das nossas crianças são aprendizes visuais e precisam de ver as coisas para perceberem como se fazem. Numa fase inicial é importante mostrares à tua criança como se faz e convidá-la a participar da dinâmica mas de uma forma divertida e entusiasta. Por exemplo, em vez de fazeres o pedido de ela pôr a mesa, podes-lhe apresentar um desafio como: colocar a música de pôr a mesa e convidares a tua criança a colocar a mesa contigo antes da música acabar para conseguirem ganhar a vossa missão! Podes cronometrar o tempo que ela demora e o tempo que tu demoras para ver quem ganha o jogo do Super Campeão de Meter a Mesa. Tudo é válido desde que seja interessante e motivador para a tua criança. Adapta a tarefa aquilo que ela gosta e por vezes podes adicionar apenas pequenos elementos como colocar uma música que gosta ou no final de ela completar a tarefa, dar-lhes um mega hi5 pelo excelente trabalho que fez. Vê o que funciona com a tua criança e dá asas à tua criatividade.

 

  • Vestir sozinho, calçar as meias, atar os sapatos, etc. 

Muitas vezes estas pequenas coisas podem ser bastante desafiantes para as nossas crianças e nessas alturas é muito importante recorremos a uma atitude descontraída e divertida para ajudar a nossa criança a relaxar e mostrar como a tentativa – erro é perfeitamente normal e que quando acontece, até se divertem a tentar e tentar. Modela o comportamento que gostarias que a tua criança tivesse e torna o desafio em algo divertido. Exagera nas expressões faciais, nas “palhaçadas” e ao mesmo tempo incentiva a tua criança a tentar. Sê a sua maior claque e mostra-lhe que acreditas na sua capacidade de conseguir!

 

  • Higiene pessoal como lavar os dentes

Temos um artigo especialmente dedicado a este tema com várias dicas que podem ajudar. Espreita aqui.

 

Atividades vida diária mais complexas

Partilhamos de seguida algumas atividades de autonomia que em alguns casos, já engloba saídas no exterior ou contextos um pouco mais complexos. Contudo, é de salientar, que para trabalhar esta área num contexto não tão controlado, é importante que a nossa criança esteja preparada para tal e que não seja um momento de stress adicional para ti ou para a tua criança, pois senão os efeitos acabarão por ser contraproducentes. 

A nossa criança não tem autonomia para ir às compras sozinha? Mas se calhar tem autonomia para levar o lixo até ao contentor. Se calhar tem autonomia para esperar por nós junto ao carro, enquanto fechamos a porta de casa. Se calhar tem autonomia para sair do carro e ir até ao portão da escola sozinha.

A pessoa pode não ter autonomia para fazer um percurso todo sozinha, mas pode ir fazendo partes do percurso sozinha com supervisão: “Podes ir indo até à paragem e esperas lá por mim” ou dar autonomia dentro do supermercado: “Podes ir buscar o pacote de arroz da marca X e vir ter comigo” ou “…e pagar enquanto eu espero cá fora”. Começa com pequenas coisas e à medida que vais tendo respostas positivas, vai aumentando gradualmente o grau de desafio.

A nossa criança não tem autonomia para fazer a sua própria comida? Mas se calhar pode ajudar na preparação do jantar. Se calhar pode ajudar a pôr a mesa e a levantá-la no final e/ou a pôr a louça na máquina.

Treinar a preparação e realização de uma refeição: pensar o que vamos comer, ver se temos em casa, fazer compras, cortar, descascar, cozinhar, pôr a mesa, e depois tratar de toda a arrumação são coisas nas quais podes incluir a pessoa com autismo. Obviamente que continuamos a ajudar (a questão da supervisão e orientação numa fase inicial), mas podemos deixar que faça muita coisa sozinha e que decida sozinha “como é que queres que corte o pimento?” “como quiseres, escolhe tu”. Demora mais tempo, claro… mas é importante dar esse tempo e deixá-la treinar essas competências.

Estes são apenas alguns exemplos, a pessoa com autismo não tem que fazer as mesmas coisas que as outras pessoas fazem, mas pode fazer outras. E tem tudo a ver com o nível em que a ela se encontra.

A terapia ocupacional pode ser muito importante para este ponto e um terapeuta ocupacional pode ser uma grande ajuda para ajudar na aplicação de estratégias práticas e concretas para trabalhar estas questões de autonomia mais complexas no dia-a-dia.

 

Em resumo, como podemos então promover a autonomia da nossa criança?

 

 

  • Começamos com tarefas simples que sabemos que a criança consegue fazer. Trabalhamos a base para depois podermos subir degrau a degrau, até chegar ao nosso objetivo final.
  • Treinar as competência/tarefa com apoio, havendo numa primeira fase uma modelação da nossa parte.
  • Treinar as competência/tarefa com supervisão, orientação e acompanhamento.
  • Celebrar quando a criança consegue ou mesmo que não consiga totalmente mas está a esforçar-se. Celebrar cada tentativa da criança para a motivar a continuar a tentar até conseguir.
  • Tornar a atividade/tarefa divertida e prazerosa sempre que possível e recorrer às grandes motivações e interesses da criança.
  • Valorizar a sua autonomia e reforçar positivamente/mostrar como ao fazer isso está a ajudar a mãe / o pai.
  • Adaptar, flexibilizar e aceitar a fase em que a nossa criança se encontra, usando sempre a premissa de que apesar de a criança ainda não fazer o que queremos é capaz e irá conseguir.
  • Dar responsabilidades à criança e confiar na sua capacidade de superação.

 

 

As crianças podem ter autismo mas não significa que não conseguem fazer as coisas. Podem ter dificuldade, alguma resistência, mas não quer dizer que um dia não irão conseguir e o nosso papel em todo o processo é fundamental. 

Apesar de querermos facilitar o mundo e o dia-a-dia da nossa criança, temos que entender que por vezes ao fazê-lo estamos a limitar a criança e o que parece no momento mais simples e fácil, vai dificultar o seu desenvolvimento, a sua aprendizagem, o seu dia-a-dia e a sua relação com os outros. Para além de que, autonomia quando bem trabalhada também promove o bem-estar, realização pessoal e autovalorização. Citando Maria Montessori, “Qualquer ajuda desnecessária é um obstáculo na aprendizagem”. 

Confiem nas vossas crianças e criem as oportunidades para elas vos conseguirem surpreender! 😊