Como criar brincadeiras que sejam do interesse da minha criança?

Antes de mais, o primeiro passo e mais importante para definir ou criar uma brincadeira para as nossas crianças é sabermos quais são os seus interesses e motivações. 

Quando falamos em interesses e motivações não é o que a criança faz porque lhe pedimos como desenhar um desenho, fazer um puzzle ou ordenar letras. Mas sim, tudo o que a criança faz de forma espontânea e se diverte a fazer. 

Muitas vezes os pais têm dificuldade em perceber quais são as motivações das suas crianças porque muitas vezes não brincam com nada em concreto ou parece que não procuram nada de especial a não ser o ipad, ver vídeos no youtube ou televisão. Mas a verdade é que se observarmos melhor vamos conseguir perceber que a nossa criança tem muito mais interesses e motivações do que aquilo que achávamos. 

No caso das nossas crianças, por vezes os interesses podem ser coisas atípicas ou coisas pouco comuns como ver objetos a cair, alguns sons específicos ou algumas reações nossas mais exageradas. Podem não achar piada a carros mas podem gostar de ver as rodas dos carros a girar. 

A ideia é tirar um pouco de tempo para observar o que a sua criança faz quando está sozinha. O que é que ela procura, o que lhe cativa a atenção, o que faz com que rie ou sorrie e desperte o seu interesse? Esses são os pontos a observar e a apontar!  

Para crianças que passem muito tempo em frente ao computador, tablet ou televisão, observem o que vem repetidamente. São sempre os mesmos vídeos, são sempre as mesmas partes do vídeo, as mesmas personagens? É alguma música, luz, som? 

Identificar as motivações e interesses das nossas crianças é o primeiro passo para conseguirmos elaborar atividades / brincadeiras que sejam do seu interesse e nas quais consigamos trabalhar os nossos objetivos. Portanto a vossa primeira tarefa é fazer uma lista dessas mesmas motivações e interesses!

Quando uma criança está motivada e se está a divertir, estes dois fatores aceleram o desenvolvimento e aumentam a atenção da criança em nós – que é tudo o que precisamos para conseguir trabalhar as nossas metas. 

Para além desta lista, é importante ter também em atenção os tempos de disponibilidade. Por vezes podemos ter uma brincadeira altamente interessante para a criança mas apresentamos a mesma no timing errado e o resultado é que temos uma criança que não ligou nenhuma ao que preparámos. As nossas crianças têm tempos de disponibilidade e momentos em que estão abertas à interação e outros que não estão. É fundamental ter isso em atenção e saber ler os sinais que a nossa criança nos passa. 

Quando uma criança está pronta para uma interação geralmente mostra-nos dando algum sinal como um contacto visual, vir para ao pé de nós, olhar para o que estamos a fazer, pedir-nos algo e é neste momento que temos abertura da sua parte para poder construir sobre essa interação e uma vez a mesma estabelecida e fortalecida, lhe podermos apresentar a nossa tão ansiada atividade!

Agora que já temos a base explicada (lista de interesses e uma criança disponível e pronta para a interação) podemos então entrar em ação! Por vezes a dificuldade de elaborar brincadeiras está ligado ao facto dos interesses das nossas crianças serem tão fora do comum e não sabermos bem como os podemos usar para conseguir trabalhar com elas uma série de competência.

Partilhamos um exemplo de uma criança que adorava ver pedaços de papel a cair. Pegava em papel, rasgava aos pedacinhos e atirava-os ao ar olhando para os pedacinhos a cair. Corria pela sala, voltava a apanhar os papéis, atirá-los ao ar e vê-los a cair. 

Como a criança também adorava brincadeiras físicas, criámos uma brincadeira com um circuito em que a criança tinha de percorrer o percurso e chegava ao final e tinha um balde que se virasse, via papéis e confettis a cair. No meio dessa brincadeira conseguimos trabalhar objetivos como o esperar pela sua vez, ter de seguir um jogo com regras e estruturas simples, participar fisicamente e verbalmente da interação. 

Como a criança estava muito motivada para chegar ao fim e virar o balde, para ela participar da brincadeira foi altamente motivador e ao mesmo tempo que brincávamos, conseguimos trabalhar com ela uma série de competências, sem ela se aperceber – porque se estava a divertir!

Tínhamos outra criança que tinha muito interesse em saber o que estava por detrás das paredes, fazia muitas perguntas nesse sentido e chegou a fazer buracos na parede para perceber o que se passava por trás. Pegando nessa motivação sugerimos começar a construir com cartões túneis, onde a criança pudesse andar por dentro, criar caminho e explorar – e se quisesse fazer buracos nas paredes de cartão, podia sem problema algum, explicando que nessas era possível mas nas da sala, não.

A base é sempre esta: observar, observar e observar. Pensar fora da caixa, deixar a criatividade fluir e ver o que podemos fazer com as nossas crianças que as motivem e que as ajude ao mesmo tempo. 

Vão existir alguns momentos que as crianças não vão aceitar as brincadeiras ou não vão querer participar, e não há problema: é normal e faz parte do processo. O fundamental é nunca parar e tentar sempre, pois nunca sabemos o dia que a nossa criança nos vai surpreender e aceitar a nossa brincadeira! 😊