Sinais de alerta: O que posso fazer?

Já conversamos com vários pais sobre este assunto e temos realizado questionários sobre este tema e há sempre experiências diferentes que os cuidadores e profissionais partilham connosco. Enquanto ficamos felizes por saber que há muitos cuidadores a ter o apoio que procuram, preocupa-nos que outros se sintam perdidos e tenham dificuldade em encontrar caminhos e respostas.

Estar atento aos sinais de alerta relacionados com autismo é importante, pois permite-nos agir rápida e precocemente. E todos os profissionais estão de acordo que a intervenção precoce é um elemento essencial para um prognóstico mais positivo.

1. Então, que sinais deverão chamar a nossa atenção?

Comunicação Não Verbal e contacto visual

  • Não tem expressões faciais: nomeadamente não sorrir
  • Não tem contacto visual: não olha nos olhos, não olha quando é chamado, não olha para ver o que outros estão a fazer, etc.

Comunicação verbal

  • Não fazer sons: Os bebés vão fazendo alguns sons antes de começarem a falar, balbuciando, etc.
  • Não falar ou regredir na fala: por vezes, começam a falar e depois regridem, outras vezes não desenvolvem a comunicação verbal, ou então fazem-no o mínimo possível (utilizando mais o gesto de apontar ou puxando/empurrando as pessoas para ter o que quer).

Pouco interesse no que se passa à sua volta

  • Não reage a sons: Por exemplo, se é bebe e não se assusta ou reage a barulhos mais altos repentinos, não procura ou não se mova no sentido da voz da mãe ou pai, ou no sentido da música de um brinquedo, por exemplo.
  • Não brinca nem mostra interesse noutras crianças
  • Isolamento e não interação com outras pessoas

Comportamentos repetitivos

  • abanar as mãos, balancear-se, alinhar objetos, andar em bicos de pés pela casa, rodar objetos, repetir sempre a mesma palavra/frase (sem intenção de comunicar), etc;

Comportamentos desafiantes, choro e birra

  • quando ainda bebé choro intenso, aparentemente sem razão, difícil de consolar e parar;
  • comportamentos agressivos e autoagressivos
  • birras 

Sono

  • dificuldade em adormecer, sono instável, dormir poucas horas, acordar a meio da noite

Sensorial

  • Não gostar de contacto físico
  • Seletividade alimentar
  • Sensibilidade a cheiros, sons

Estes são apenas alguns dos sinais, talvez os mais falados e os que os cuidadores e profissionais mais observam. No entanto, não quer dizer que a criança não possa apresentar outros sinais, nem que tenha que os apresentar todos. E observar estes sinais não conta como diagnóstico, no entanto, pode ajudar-nos a perceber os desafios da criança de forma a podermos ajudá-la melhor. 

2. E agora que identifiquei estes sinais na minha criança, o que posso fazer?

  • Fala com o pediatra: O ideal é que pais e profissionais estejam em sintonia, neste ponto. No entanto, os pais passam mais tempo com a criança, é natural que observem mais sinais. Portanto, se te parece que o pediatra não está a dar atenção aos que te preocupa, fala, partilha as tuas dúvidas e pede explicações para os sinais que observas. Pode até ser interessante gravar os comportamentos da criança para mostrar ao pediatra. Lembra-te que também és livre de procurar uma segunda opinião, se não estiveres satisfeito/a ou descansado/a com a resposta que tens do pediatra que acompanha a tua criança regularmente.
  • Referencia ou pede apoio da Intervenção Precoce: Existe um Serviço Nacional de Intervenção Precoce, no qual podes referenciar a tua criança e pedir apoio das Equipas Locais de Intervenção. Se o médico não referenciar, enquanto cuidador podes fazê-lo por iniciativa própria.
  • Pesquisa e aprende: Há imensa informação disponível na internet e imensos livros sobre o tema. É importante filtrar o que faz sentido e o que é importante para ti. Procura grupos de pais, fóruns, páginas do facebook onde podes colocar as tuas dúvidas e recolher informação, conhecimento e opiniões de outros pais e profissionais. Na tua pesquisa vais perceber que há muita coisa que podes começar a fazer em casa para ajudar a tua criança. O mais importante enquanto a criança é pequena é estimular o seu desenvolvimento, mesmo nas áreas em que tem mais dificuldade. Há vários blogs (tal como o da Vencer Autismo) onde podes encontrar dicas específicas para pais, brincadeiras, etc. 
  • Não esperes pelo o diagnóstico, começa já a intervir: depois da tua pesquisa, provavelmente, vais perceber que a intervenção precoce é um ponto importante no desenvolvimento da criança. Se já falaste com o pediatra e/ou já referenciaste, mas ainda ninguém te deu uma resposta ou ainda não conseguiste iniciar nenhum tipo de apoio – começa tu! O diagnóstico não é necessário para iniciar a intervenção e, como por vezes os profissionais preferem aguardar algum tempo antes de fechar o diagnóstico, se aguardares esse tempo todo até iniciar a intervenção, podes estar a perder uma janela de oportunidade e desenvolvimento essencial. Neste blog encontras imensas dicas e estratégias que podes colocar em prática desde já (e existem imensas outras páginas e blogs com recursos interessantes para explorar). Tens também a possibilidade de iniciar uma terapia ou acompanhamento profissional através do privado – e uma coisa não invalida a outra!
  • Escolhe o  que faz sentido para ti e o que vai ajudar a tua criança: há imensas terapias e profissionais. Não existe a melhor terapia ou profissional. Ninguém te pode dizer qual é a melhor ou pior. O mais importante é que a família e a criança se sintam bem com o acompanhamento que estão a receber. Acredita que vais conseguir perceber na altura, se determinado profissional ou terapia faz sentido para ti e para a tua criança. Em relação aos profissionais que vais encontrar, acreditamos que o mais importante é a capacidade da pessoa criar uma ligação com a tua criança.
  • Envolve-te na intervenção: muitos profissionais já procuram ativamente envolver os pais na intervenção, fornecendo estratégias para aplicarem em casa, etc. Mesmo que não o façam, envolve-te e mostra que queres ser parte da equipa e trabalhar em conjunto.
  • Não guardes tudo para ti e pede ajuda: é natural os pais com crianças com desafios, isolarem-se e não falarem. Mas isso não irá ajudar. É importante procurar outros pais, falar, partilhar as suas angústias e pedir ajuda. Há uma enorme quantidade de pessoas que querem ajudar. Fala com os teus amigos, familiares, profissionais, ou até em grupos online de pessoas na mesma situação. Pode fazer sentido pedir apoio psicológico para saberes como lidar melhor com o que se passa.
  • Comparar: as crianças são todas diferentes e as crianças com autismo também. Todas elas se desenvolvem a níveis e ritmos diferentes. E o que resulta para uma criança pode não resultar para outra. Aprende com os outros pais, mas foca-te na tua criança, no que gosta e não gosta e nas suas fraquezas e forças. E compara a tua criança com ela própria: como é que ela está agora e como estava há uns meses/anos? O que já conseguiu alcançar? Que novas dificuldades surgiram?
  • Cuida de ti: Nunca nos vamos fartar de enfatizar este ponto. Se tu não estiveres bem não vais conseguir ajudar a tua criança tão bem também. Portanto, cuida da tua saúde física e mental. Alimenta-te, faz algum tipo de exercício físico, descansa, cria momentos de relaxamento, socializa e tira tempo para ti. Isto vai implicar também que peças ajuda a outras pessoas em alguns momentos – não és pior pai nem mãe, por cuidares de ti, pelo contrário! Cuidas de ti também pelo bem da tua criança, porque isso vai-te dar também mais capacidades, energia, motivação para conseguires estar com a tua criança a 100%.

3. Concluindo…

  • Acreditamos que o mais importante é começar a agir desde cedo, quando se observa os primeiros sinais. E acreditamos que os pais são essenciais nessa ação, por isso disponibilizamos estratégias, workshops e palestras para que possas intervir logo, em casa.
  • Somos fãs de tirar 30 minutos por dia para interagir e brincar com a criança, descobrir os seus gostos, interesses, forças e dificuldades e pôr em prática algumas estratégias. E caso se venha a confirmar que afinal a criança não tem nenhum diagnóstico, ótimo! Não perdeste nada por brincares 30 minutos por dia com a tua criança, pois não? Talvez até tenham ganhado todos com isso. E se calhar, até podes continuar a fazê-lo, imagino que a tua criança com ou sem PEA vai adorar 😉