Como participar dos comportamentos repetitivos da minha criança?

Uma das caraterísticas muito comuns das pessoas no espetro do autismo é terem comportamentos repetitivos. Estes comportamentos repetitivos variam muito de pessoa para pessoa e a verdade é que os mesmo podem-se verificar de diferentes formas. 

Alguns comportamentos repetitivos podem ser movimentos como balançar o corpo, abanar as mãos, alinhar objetos, falar sempre do mesmo assunto, fazer perguntas repetitivas, fazer o mesmo jogo sempre da mesma forma, etc. 

A verdade é que estes comportamentos repetitivos têm uma função – não existem só porque sim e a criança não os faz só porque lhe apetece. É muitas vezes uma forma de tomarem conta de si, num mundo que para eles é completamente imprevisível.

Estes comportamentos repetitivos acabam por lhes trazer conforto porque são ações previsíveis e é uma forma de se auto regularem e conseguirem filtrar o bombardeamento sensorial pelo qual possam muitas vezes. 

Uma forma de criar ligação com as nossas crianças quando estão nesses comportamentos exclusivos é juntar-nos ao que estão a fazer. Experimenta esta abordagem hoje com a tua criança e vê como é que ela reage. 

Damos alguns exemplos…

Se a tua criança está a alinhar brinquedos, coloca-te em frente a ela (com alguma distância) e começa a alinhar também objetos. 

Se a tua criança está a falar sempre sobre o mesmo assunto, torna-te o ouvinte mais interessado e entusiasmado do mundo por estares a ouvir o que a tua criança tem para te dizer.

Se a tua criança está a andar de um lado para o outro da sala. Começa a andar no sentido contrário ao dela mas sem entrar no seu espaço. 

Tenta participar do que a tua criança está a fazer no momento mas sem interferir no espaço dela e sem querer modificar o que está a fazer. Simplesmente observa, percebe como faz o comportamento repetitivo e junta-te a ela sem esperar nada em troca e espera para ver o que acontece…

Agora… Algumas crianças podem não aceitar que nos juntemos aos seus comportamentos repetitivos e exclusivos. Muitas podem não entender o que estamos a fazer e podem achar que estamos a tentar invadir o seu espaço para lhe pedir para mudar e / ou fazer outra coisa…

Nesses casos podemos explicar à criança que o que ela faz é simplesmente maravilhosos e incrível e que queremos participar do que está a fazer porque achamos interessante e queremos saber mais sobre ela. 

Quando nos estivermos a juntar é importante não estarmos no espaço dela – queremos estar no mesmo espaço que ela mas não em cima dela. Se ela está a usar todos os livros, não lhe vamos “roubar” os livros para nos podermos juntar ao que ela está a fazer. Vamos tentar arranjar os nossos próprios livros e se não tivermos podemos usar revistas, folhas, o que estiver à mão e fizer sentido. 

Queremos que as nossas crianças confiem em nós e que tenham interesse em estar connosco para conseguirmos criar a relação que tanto desejamos. Os comportamentos repetitivos podem ser a porta de entrada para a construção dessa relação.

Juntem-se à vossa criança e esperem que se mostre recetiva. Quanto mais nos juntarmos, mais facilmente ela ficará recetiva às nossas ideias e estímulos, mais facilmente terá a atenção dela em nós. 

Quando a nossa criança estiver mais recetiva e isso podemos verificar quando temos uma criança que olha mais para nós, que vem para ao pé de nós e não necessita de estar tão “afastada”, quando a sua expressão fácil demonstrar mais conexão e interesse ou quando ele falar connosco… vamos então inspirar o seu crescimento 🙂 

E como podemos fazer isso? 

Vamos simplesmente juntar algo novo à atividade. Se a nossa criança está sempre a desenhar a mesma coisa, vamos desenhar algo diferente. Ou vamos contar uma história sobre o desenho que estamos a fazer. Ou vamos sugerir fazer um desenho novo para oferecer a alguém especial. Se a criança aceitar perfeito! Celebrem o que fizeram juntos e agradeçam à vossa criança por vos ter deixado participar dessa atividade tão prazerosa. 

O facto de celebrarmos ajuda a nossa criança a sentir que teve sucesso e motiva-a a continuar. São poucas as vezes que mostramos a nossa gratidão pelas pequenas coisas e este pequeno gesto, pode fazer toda a diferença!

Mas se ela vos disser “Não” quando tentarem inspirar crescimento na atividade e / ou jogo, aceitem esse “não” – lembrem-se que podem sempre obter um “sim” um dia mais tarde.