Autismo e Educação

A escola é o local onde as nossas crianças passam grande parte do seu tempo e, por essa razão, também um dos locais primordiais para as aprendizagens, não só de competências académicas, mas também sociais e emocionais.

Tem-se procurado criar uma escola inclusiva, um método de ensino inclusivo, que sabemos ser benéfico e necessário para todas as crianças, mas parece não ser uma tarefa fácil. Cada criança é uma criança, e cada criança com autismo também. A forma como cada criança aprende é diferente e, embora seja necessário ter uma base comum, se não realizarmos adaptações, temos sempre de reconhecer que não estamos a promover a aprendizagem de algumas crianças da forma mais positiva, que não estamos a praticar a equidade, que não estamos a praticar a inclusão.

Para além de uma lei de educação inclusiva, precisamos de conseguir colocar essa inclusão na prática e só conseguiremos fazê-lo ao compreender os nossos alunos, as nossas crianças e as suas particularidades. Conseguir que a criança com autismo esteja a maior parte do tempo na sala com a sua turma, tanto pode ser inclusão como não. Se a criança, consegue estar tranquila na sala, ouvir a professora e ir realizando exercícios mesmo que seja com apoio de um tutor, ok. Ótimo! Agora imaginem uma criança com sensibilidade a estímulos, pouco tempo de atenção conjunta e muito rígida – para esta criança o esforço de estar na sala com a sua turma, pode ser demasiado, pode dar lugar a crises, porque a estimulação é muito grande e vão existir imensas exigências por parte dos outros. Neste caso, ter a criança na sala com a sua turma, não é inclusão, não é aceitação e pode ser algo muito agressivo para a criança. Pior, pode aumentar o estigma negativo em relação à criança e ao seu autismo, pode fazer-nos pensar que aquela criança tem dificuldades maiores do que as que pensávamos. E tudo isso, porque não estamos a compreender o que se passa com a criança e por isso, não estamos a ajustar o ambiente, nem a praticar a inclusão, que era o nosso principal objetivo.

Todos os alunos têm necessidades diferentes: um aluno com autismo tem necessidades diferentes de um aluno com dislexia, de um aluno com trissomia 21, de um aluno com um contexto familiar complexo ou negligente, de um aluno com ansiedade, e por aí fora.

Focando no autismo: a criança pode ter hipersensibilidade a sons e estar numa aula com outros alunos, pode ser demasiado estimulante (sons de pessoas a falar, som dos lápis a escrever, cadeiras a serem puxadas, mesas a balançar, a professora a falar, os carros a passar lá fora, etc.); a criança pode ter um interesse específico em comboios, mas nenhuma das atividades que lhe dão utiliza o seu interesse como base, então fica tudo mais difícil e é mais aborrecido; a criança pode ter um nível de flexibilidade baixo e precisar de seguir uma estrutura específica de atividades para se sentir mais segura e confortável, e portanto, o facto de a professora ter faltado ou de colega faltar, pode ter impacto na criança; a criança pode não utilizar a comunicação verbal ainda, mas compreender tudo e conseguir responder a todas as questões (mas não conseguir demonstrá-lo); pelos mais diversos desafios que a criança enfrenta, pode evidenciar comportamentos mais agressivos que podem ser mal interpretados e aumentar ainda mais o estigma negativo. São apenas alguns exemplos dos desafios das crianças com autismo…e dos seus respetivos professores.

Então, umas das coisas que é necessário é possibilitar a adaptação de leis, medidas e estratégias a cada criança. E, sim, isso já pode ser feito, mas é importante também dar formação aos professores. Há professores que não sabem o quanto podem adaptar e flexibilizar  e isso cria barreiras. E não é porque os professores não queiram ajudar (acreditamos que a maioria quer), mas porque muitas vezes acham que não podem fazê-lo. Em vários casos, acreditamos que ter um tutor para apoiar nas aprendizagens e promover e mediar as interações com os colegas da turma, é uma necessidade para estas crianças e professores, e que beneficiaria o bem-estar e sucesso académico de todos – e por essa razão, seria uma medida altamente promotora de inclusão.

É importante trabalhar em conjunto com os professores e dar-lhes apoio para conseguirem realizar este trabalho. No entanto, é importante também capacitar os pais e cuidadores, informar claramente dos seus direitos e os da sua criança a nível da educação para que não aceitem o primeiro “isso não é possível”, batam o pé e consigam os apoios a que têm direito.

É importante que nos incluamos a todos: pais, professores, terapeutas, crianças com e sem autismo. É importante praticar a aceitação com todos estes intervenientes, eu não posso aceitar as dificuldades da minha criança com autismo, mas não aceitar que as outras crianças podem ter dificuldades em compreendê-la, ou que o professor tem dificuldade em adaptar a matéria, ou que a auxiliar tem dificuldade em lidar com as crises… Aceitamos e incluímos todos e a partir daí percebemos o que é necessário trabalhar e promover: apoio e formação para professores; sessões de informação, consciencialização para todos os alunos; apoio para a criança com autismo; apoio e capacitação para os pais/cuidadores; formação dos auxiliares e restantes profissionais da escola

E é nesta compreensão que a Vencer Autismo se foca. Se conseguirmos que os professores compreendam melhor os seus alunos com autismo, acreditamos que irão realizar um trabalho melhor, conseguirão adaptar-se melhor e lidar melhor com as dificuldades. Vão sentir-se mais capazes, mais confiantes… e isso também tem impacto na forma como lidam com a criança com autismo. Vão sentir-se acompanhados, em vez de sozinhos. 

Por isso realizamos Palestras e Workshops gratuitos regularmente, abertos a todas as pessoas e contamos com a participação de professores e educadores. E temos também o serviço de mentoria para pais e profissionais, onde acompanhamos também professores, com sessões mensais – com foco na compreensão da criança.

Para haver inclusão não basta a lei. É necessário haver informação, capacitação e aceitação.