Os desafios sensoriais das nossas crianças

Existe ainda um desconhecimento muito grande sobre o que é realmente o autismo. A maior parte das pessoas ainda acha que o autismo é um problema comportamental, quando na verdade, o comportamento das nossas crianças acaba por ser um sintoma do problema, e não o problema em si. 

As nossas crianças comportam-se de forma diferente, é certo, mas todos os comportamentos são sintomas e não as causas. 

Imaginem este exemplo: 

Se tenho uma comichão no braço, o que vou fazer é coçar o meu braço. Quem olha para o comportamento visto de fora, vai achar que o problema é o meu comportamento e o mais provável é que me diga para parar de coçar. A questão é que o coçar (o comportamento) não é a causa do problema, é um sintoma do problema. 

Podemos ter várias abordagens para eu parar esse comportamento. Podem-me dar algo para as mãos para me distrair… Podem-me atar as mãos… Podem até ralhar comigo e proibir-me de coçar o meu braço. E até pode resultar por uns momentos… Mas mais cedo ou mais tarde, o comportamento vai voltar… Porque na verdade, não atacamos o problema, mas sim o sintoma.

Agora imaginem esta abordagem: 

Em vez de tentar parar ou modificar o meu comportamento, porque não tentar olhar para o problema e entender o problema? Pegar no meu braço e perceber porque estou a coçá-lo. Olhando e observando o problema podemos perceber que o que tenho se calhar é uma picada de mosquito e colocando um creme, a comichão passa. Passando a comichão, o comportamento (coçar) desaparece porque focamos e intervimos no verdadeiro problema.

Este exemplo pretende mostrar a diferença entre tentar acabar com os sintomas (comportamentos) vs abordar o principal desafio das nossas crianças (socio relacional). 

O principal desafio das nossas crianças é o de criar e manter a conexão no relacionamento com os outros e existem algumas razões para isso acontecer. Uma das principais razões, é que as nossas crianças processam os estímulos de uma forma diferente da nossa e por vezes, têm alguma dificuldade em processar e dar sentido aos inputs que recebem do mundo exterior. 

A verdade é que todos os dias somos bombardeados por estímulos vindos do exterior. Se pararmos um pouco, estejamos ou estejamos, podemos verificar que de facto há várias coisas a acontecer. Por exemplo, estamos em casa a descansar mas temos o som da TV ligada, ouvimos os carros lá fora a passar ou a apitar, ouvimos o frigorífico a funcionar, os barulhos do andar de cima, etc etc. Na maior parte das vezes nem nos damos conta de todos esses ruídos e é assim que é suposto ser! O nosso cérebro tem a capacidade de filtrar essa quantidade de estímulos, de forma a não termos um bombardeamento sensorial. 

Com as nossas crianças, essa filtragem processa-se de forma diferente! Todos os estímulos podem chegar ao mesmo tempo, mesmo volume e intensidade e pode ser muito difícil para elas gerir essa entrada repentina e abrupta. De facto, para as nossas crianças, muitas vezes o seu dia-a-dia é como se estivessem num aeroporto: confusão, luzes a piscar por todo o lado, muito movimento, barulhos, etc. 

Tentar perceber a que estímulos a tua criança é mais ou menos sensível e tentar adaptar ao máximo o seu ambiente pode fazer toda a diferença! 

Já escrevemos um artigo que explica como o fazer! Se ainda não tiveste oportunidade de o ler, descobre tudo aqui: Adaptar o ambiente para evitar sobrecarga sensoriais.

Devido aos desafios do processamento sensorial, adaptar o ambiente das nossas crianças é fundamental! Por vezes ambientes como a escola podem ser demasiado estimulantes, o que acaba por interferir no desenvolvimento da criança com autismo. Tornar o ambiente à volta da nossa criança o mais otimizado possível, vai potenciar todo o seu processo de aprendizagem e consequente superação dos seus desafios relacionais 🙂